Em Elvinha despejaram-nos a todas

Em Elvinha despejaram-nos a todas

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Na passada quinta-feira o Concelho da Corunha acometeu o despejo e derrube da vivenda duma família em Elvinha. O que se fez não foi apenas tirar muros que podem volver a ser erguidos com relativa facilidade, o que se fez foi atacar ao mais sagrado duma pessoa, sua segurança, seu modo de vida, seu fogar. Uma casa é muito mais do que paredes, muito mais do que uma questão material.

Para além deste feito deplorável que já é conhecido por todas e de tudo quanto envolveu ao despejo, há que ter em conta a situação de pressão e repressão que tanto esta primeira família lançada como as demais afetadas pelo processo de expropriação forçosa vem sofrendo desde há muito tempo por parte da Administração Pública.

As expropriações forçosas do núcleo de Elvinha não guardam qualquer relação com o sentido comum, com a lógica nem com o bem-estar da maioria, apenas é a manifestação da especulação mais absurda, onde a Administração se pôs claramente a favor dos interesses privados dos empresários, pondo estes muito por acima dos interesses sociais e coletivos. Sob a falácia do bem comum e da utilidade pública despejam com total impunidade a pessoas dos seus fogares, muitas dessas pessoas não podem fazer frente a um aluguer social nem muito menos a um a preços de mercado, destruímos com total impunidade seu modo de vida, mesmo seu modo de ganha-la. Destruímos, ainda, o espírito dum bairro independente, diferente, que manteve durante décadas a sua singularidade rural dentro do conjunto urbano. Destruímos o futuro destas pessoas e para a construção de mais um exemplo de esperpento especulativo, o Parque Ofimático da Corunha.

A quem vai favorecer esta construção? Qual é o motivo para que numa cidade com mais de 20.000 vivendas vazias se promova a construção de mais delas? E esse Parque Ofimático, foi uma demanda de quem? A ninguém lhe perguntaram, nem às cidadãs da Corunha nem muito menos às próprias afetadas que desde o primeiro momento manifestaram uma forte e ativa resistência ante as expropriações forçosas, e, o que resulta ainda mais dramático, a sua converssão também forçosa em promotores dessa desfeita, dum projeto que nunca, e hoje ainda menos, foi necessário nem demandado. No caso de Elvinha não há qualquer necessidade social, pública e coletiva a satisfazer com este novo ordenamento urbanístico, o que há são interesses económicos dos que apenas se vão lucrar uma minoria, ao tempo que a maioria paga as consequências, situação própria duma sociedade paralizada e duma clase política mafiosa que ainda se pretende democrática.

A história da paróquia de Elvinha será a história do trunfo da impunidade, do absurdo mais absoluto, do caciquismo mais râncido e da cumplicidade coletiva, pois todas deveríamos nos opor a tais excessos políticos e administrativos, desde que o legal não sempre é justo, e deve ser a justiça (a real, não apenas a que o próprio sistema cria para o seu uso, desfrute e beneficio) o que nos mover.

Diante destes feitos, O Partido da Terra do Burgo manifesta com firmeza e claridade o seu posicionamento do lado da família Corral já despejada assim como das outras que estão a aguardar a execução das suas ordens de despejo, e insta à toda a cidadania, por acima de qualquer posicionamento político ou ideológico, a apoiarem de qualquer forma possível tanto às famílias afetadas como aos grupos de ativistas que solidariamente prestam seu tempo e mesmo sua integridade na luta contra a especulação absurda, contra os abusos do poder e contra a injustiça, assim como a pedir explicações destes assuntos municipais mal chamados de políticos. Ou começamos a procurar a via para nos empoderar, para que as decisões como esta sejam resultado de assembleias onde todas podam se manifestar e posicionar, ou os entulhos do fogar de Isabel e Álvaro serão os cimentos duma nova sociedade em ruínas, pois tudo quanto for considerado progresso, construído sem termos em conta as vidas e as necessidades das demáis, não será mais do que um retrocesso muito caro.

O Patriarcado nos lixa a tod@s

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O Partido da Terra do Burgo quer parabenizar a todos aqueles movimentos sociais que reagiram diante do abuso manifesto contra a liberdade individual que foi a tentativa de modificação da lei do aborto. Evidentemente, para todas as que nos movimentamos, organizamos protestos e defundimos os problemas que implicaria essa lei, é um trunfo.
Agora, também é certo que, dalgum jeito, é um trunfo um bocado amargo, pois tanto a penalização ou legislação sobre o aborto é uma vulneração da soberania da mulher, uma violação do direito positivo a tomar decissões sobre seu próprio corpo, e uma atitude claramente reacionária. O direito positivo é aquel cujo exercício não vulnera nem restringe os direitos e liberdades de outras pessoas, por tanto, decidir abortar ou decidir parir esse filho, com independência das decissões que tomes depois do nascimento, são atividades que correspondem a um âmbito de soberania da mulher sobre seu corpo e mente, sua intimidade e privacidade, e ao livre exercício da autodeterminação pessoal de cada quem. Nem a sociedade, nem o Estado, nem a Igreja, nem os pios têm de se sentir ofendidos, por enquanto não estão afetados.
Um direito nunca deve ser um privilêgio concedido pelo omnipresente Estado, senão uma faculdade das pessoas, irrenunciável e inviolável.

Os nossos corpos e vidas são nossas, não propriedade dum Estado, dum partido, duma crença moral ou religiosa ou duma sociedade. Mas isto é que as ideologias autoritárias, como são a religião católica e o atual Estado Espanhol “social y democrático de derecho”, organizado sob esta forma tão irónica de “monarquia paralamentária” não conseguem ver, manifestando em regulamentações abussivas o seu totalitarismo e cenificando-a na usurpação da liberdade e da soberania.
Nenhum moralista, de esquerdas ou de direitas, está legitimado para decidir se eu devo ou não ser mãe, se devo parir um filho engendrado, ou em quais casos posso ejercer esse “direito” ao aborto.
Regular sobre estes aspetos indica uma profunda falta de respeito para as outras pessoas, neste caso sobre as mulheres (que surpreesa!!) ,uma nula compreensão de conceitos como a liberdade, a soberania, os direitos e a ética, tudo esmaltado por um patético moralismo, revestido duma falsa religiosidade que, igual do que as camisolas de lã, é um conceito que deve ir sempre por dentro, e nunca por fora. Vejo ótimo que as católicas praticantes e crentes (o primeiro não inclui o segundo) não abortarem disto ir contra os seus preceitos morais, o que já não vejo tão ótimo, nem lógico, nem legitimo sequer, me imporem a mim suas crenças, desde que eu não vou pelas casas a lhes dizer como é que devem pensar, atuar e se relacionarem na sua vida privada. E sejamos sérios, meu sexo, diga o que dizer a cúria católica, é essencialmente privado

Importa é decidir

Importa é decidir.

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O Partido da Terra do Burgo quere parabenizar ao povo de Escócia pelo exercicio de democracia que vem de realizar. Com independência do resultado, e sem entrar a valorar as irregularidades que puideram ser cometidas e terão de ser examinadas e reparadas, entendemos que este foi a  expressão da vontade da maioria da população que exercera seu direito a voto, o facto de poder decidir sobre o seu futuro é mesmo um trunfo, pois a recuperação da soberania para as escocesas passa inevitavelmente por tomar muitas decissões, tantas como lhes afetarem.

Qualquer povo tem de ter direito à sua autodeterminação, o qual tem de significar poder decidir as suas condições de vida sem a interferência de qualquer ente externo à própria comunidade, até alcançar um funcionamento realmente democrático da sua sociedade basado nos princípios de exercício maciço, diário e permanente da sua soberania legítima a través da democracia direta, da autonomia para a tomada de decissões e da implicação dos valores de comunitarismo e cooperação nessa tomada.

O AYE teria sido
uma boa notícia para todas as partidárias da autodeterminação dos povos e quem acreditar que uma população a morar num determinado lugar tem direito a definir não apenas sobre as condições imediatas da sua vida diária mais também quais deveriam ser suas fronteiras em concordância com os povos vizinhos, achegando assim o exercício da soberania mais um bocado a seus legítimos proprietários.

Porém, para quem pensamos que há outra forma de se organizar social e politicamente, fora do Estado, de qualquer Estado, a melhor das notícias possíveis seria a institucionalização duma sociedade realmente livre, capaz de se dirigir a sim própria sem as influências das clássicas estrutras opressoras, mas isto teria de ser também decissão das escocesas.

Todos os meus amigos

 

Depois do triste sucesso da violação duma moça em Málaga apareceram artigos de distinto corte, mas o que mais me impressionou foi este em que se fala em “Cultura da violação”.

Entre outras coisas, assevera o autor do mesmo que as mulheres temos medo com motivo, e que no fundo todos os homens são responsáveis desse temor, pois, pelo simples facto de o serem, já são vistos como uma ameaça dados os antecedentes de muitos membros do seu sexo e/ou gênero.

É certo. De média, e sem individualizar, as mulheres sentem mais temor pela sua própria integridade do que os homens. Ficaria, ainda, determinar se este é fundado e proporcional. Por sorte, na maior parte dos casos, o medo é infundado e improporcional à suposta ameaça.

Um pouco de medo é bom, isso favoreceu a humanidade continuar o caminho da evolução. Sem medo, o ser humano teria se extinguido mesmo antes de começar sua história. O medo, os medos, os temores, as fobias, são vestígios doutro tempo, traços de todos os perigos que enfrentaram ao longo da sua história nossos antepassados. Memorizar esse fenômeno como ameaça ajudava a se apartar dela numa futura ocasião ou a poder a enfrentar com mais sucesso.

 Quem escreve é mulher, e confesso que em contadas ocasiões na minha vida senti medo, e mesmo quando foi assim, apenas foram segundos fugazes antes de que a parte racional da minha mente explicara o absurdo desse temor à parte mais visceral.

Não posso evitar ser mulher, também não quereria, mas o que sim posso, quero e devo, é viver sem medo, e diz-vos tal alguém que foi criada e educada tendo presente a referência de todos os temores do mundo. Para a minha mãe, o mundo inteiro era uma grande ameaça, um perigo constante. Educou-nos (às duas filhas) para não falarmos com estranhos, para que a noite não nos apanhara fora, ensinou-nos o perigo que é andar, sair, viajar sozinhas. As mulheres temos medo, mas não é casualidade, temos medo porque a sociedade, a família, o entorno nos ensina a viver com medo.

 Fiz tudo o contrário do que me ensinaram. Tive de o fazer desde que o mundo em que eu queria me desenvolver te obrigada a fazeres tudo isso, a te moveres sem se importar da hora, a viajares tanto de noite como de dia, a te deslocares a onde e quando for preciso.

Desde a minha maioridade conduzi sozinha ou acompanhada de estranhos o equivalente a dar dez vezes a volta à terra, vivi mais noites do que a lua e relacionei-me com toda@s as deconhecid@ com quem tive oportunidade em situações e entornos que para a sociedade seriam francamente hostis e ameaçantes.

Não se passou nada. Podia ter passado, sim, mas também podia ter acontecido o mesmo de eu não sair nunca de casa. Não há qualquer causalidade.

 Pessoalmente, o 90% do meu relacionamento diário é com homens. Nunca me senti vulnerável ao seu lado, nem ameaçada pela sua presência.

Quando começas por explicar que apenas tens amigas mas que para compensar a lista de amigos homens dá a volta à Muralha de Lugo a gente começa a buscar explicações freudianas cada uma mais ridícula do que a anterior num intento esquisito de justificar a exceção à regra social de que homens e mulheres não podem ser amigos, no fundo, eles são a ameaça, o inimigo. Não é preciso mais satisfações, relaciono-me maioritariamente com homens porque o mundo em que me movo é um mundo maioritariamente masculino, por motivos que agora não daria para explicar aqui, e o relacionamento, partilhar experiências, vivências e objetivos faz o carinho e cria a amizade.

Me relacionar com os homens fez me perder o medo. Foi um processo doloroso por enquanto me estava a apartar da base da minha educação, mas era necessário. O contrário, pareceria-se muito com não estar viva. O primeiro que fiz foi despir aos meus companheiros de etiquetas, e passaram de serem homens a serem simplesmente pessoas, e como pessoas, não representam qualquer ameaça para mim. Seria insuportável mirar a qualquer dos meus companheiros à cara e ver nele um possível atacante e me reconhecer a mim própria como vítima, seria injusto para eles e para mim. Não posso viver pensando que cada homem com quem me cruzo me vai danar, por enquanto não é certo, e não quero me complicar a existência com a preocupação de meditar sobre o cumprimento da saia ou o apropriado do decote cada vez que me tenho de relacionar com um companheiro, seria mentalmente agotador para além duma perda imensa de tempo. E ainda também não quero que eles se sintam incômodos suspeitando do meu medo, apenas serviria para tal incomodidade limitar ou mesmo impedir as nossas interações, e com sinceridade, nem homens que me rodeiam merecem tal nem eu estou disposta a que tenham de sentir esse mal-estar. Com essa disposição apenas estaria projetando nos demais as minhas limitações e temores infundados, e não tenho vontade.

 Mas a sociedade insiste, insiste, insiste em nos atemorizar, em que devemos nos proteger, aprender a nos autodefender e a nos vermos sempre como vítimas potenciais pelo mero facto de sermos mulheres.

Vítimas potenciais somos toda@s. Toda@s somos vulneráveis nalgum momento, podemos sofrer um acidente, uma agressão, qualquer dano, mas isso faz parte da vida e viver num pânico constante não adianta nada, apenas ajuda a nos limitar como seres autônomos e independentes.

 Sem o pretendermos, no fundo é o nosso medo que alimenta as relações patriarcais.

Como somos vulneráveis devemos procurar um protetor e iniciar o círculo da dominação, dominação que se entende sexual, racial, étnica, classista, econômica, cultural, militar, política e religiosa. Sempre há algum grupo a dominar sobre outros, o homem domina à mulher, os brancos dominam aos seres de qualquer outra cor, os ocidentais ao resto do mundo, a cultura e economia urbana ao rural, o capitalismo domina o espírito humano e à natureza. Assim, até o infinito, e todas intimamente relacionadas entre elas.

 Isto é que temos de banir, não a liberdade das pessoas. Temos de banir o conceito de os “desejos de um/a” serem mesmo “ordem” para o resto, expliquemos que a violação não é resultado de homens/mulheres enferm@s mas duma sociedade enferma que aceita e fomenta relações de poder de um/a frente a outro@s. O perigo não são as pessoas individuais per se, mas as situações artificialmente criadas, e para eliminar esse perigo teríamos de eliminar as relações de poder que o produzem e recuperarmos a soberania pessoal, a liberdade de ação e de interação para podermos ver no espelho do outro e que essa imagem nos construa também um pouco. Em contra, somos obrigad@s a procurar em muitas faces a um inimigo ireal. Ser homem, negro, estrangeiro, cigano, musulmano é motivo suficiente, diz a sociedade, para eu te dever ver como inimigo.

O único que temos de ver num desconhecido é um conhecido em potência, alguém com quem colaborar, ajudar, pedir ajuda, e interatuar com naturalidade para maior desfrute da viagem que é a vida.

Banir o conceito de dominação e as relações de poder, isso sim adiantaria muito, mas é precisamente o mais complicado.

Quando todas são o alvo

No dia da Galiza Mártir, ou d@s mártires da Galiza, tanto faz, é que vi a pensar nos martírios, e nas mártires. O mundo dos mártires, como tantos outros mundos, é bem diferente do  mesmo em feminino.

A mulher, assim em geral e plural, foi a mártir em todas as guerras e conflitos bélicos de qualquer intesidade desde o famoso rapto das Sabinas na antigua Roma, mas em contra do que se poderia pensar, tal situação não melhorou com a chegada da modernidade, os direitos humanos, a democracia…E isto, é devido a que num momento determinado a sociedade patriarcal se apropiou da parte feminina da mesma, e uma organização particular dessa sociedade, também chamada de Estado viu com bons olhos tal apropriamento e o reclamou para sim. Assim, a mulher passou de ser parte do clã, da familia, da etnia, a ser parte e propriedade da nação que sustentava ao Estado.

Tod@s fazemos parte dum todo, “somos de”, mas este ser apenas implica pertença no sentido da identidade, fazemos parte duma familia, dum grupo, e isso é possitivo, ajuda a nos sentirmos integrad@s, respaldad@s, protegid@s e empátic@s.

Este não é o sentido que se lhe dá ao papel da mulher nos conflitos bélicos, e mesmo depois deles. A mulher é entendida como parte integrante mas propriedade da nação, e  mentres a maior parte dos homens que padecem nos conflitos vem-se convertidos em heróis nacionais, quando uma mulher é ultrajada e estuprada, a vitima não é já a mulher mas a nação inteira, a mulher, de facto, é o menos importante, correndo uma sorte muito distinta dos homens.

O feminismo clássico continua a falar das violações na guerra como “violência de género dirigida a um grupo concreto, a mulher” mas o certo é que não é uma arma contra a mulher, porque ela não interessa nesse contexto, o mais importante não  é só as castigar, as  humilhar e as deshumanizar, o que se busca é  reprimir e destruir por todos os medios possíveis o grupo ao que pertenecem. Esta violência tem sido durante muito tempo assimilada a um signo de dominação mais do que a uma ferramenta de destruição, assim, a nação, o grupo, fica dominado pelo violador, fica sometido, atacaram a sua propriedade e isso é que merece ser contestado. Assim é que se reforça a idéia das mulheres como vítimas passivas dos conflitos armados, deixando a agência e a autonomia em maõs masculinas. A narrativa tradicional dos conflitos armados tem construido a figura da mulher desvalida que deve ser objeto de proteção, e partindo de concepções infantilizadas do sujeito feminino, é que se chega a uma estrutura social e familiar patriarcasal onde as viti entregam submissão e idolatria a cambio da nomeada proteção.

De acordo com esta vissão, de esta proteção falhar, a mulher não seria capaz de desenvolver uma resposta frente às agressões externas. Seria seu dono legítimo, a nação, a sociedade, o Estado, que teriam de cobrir essa função.

A prova de que o ataque à mulher é um ataque à sociedade e não à própria mulher é o caso das ultrajadas não pelo inimigo bélico, mas pelos membros da própria comunidade. Assim, temos múltiplos exemplos depois da II Guerra mundial, quando em todos os paises se deram casos de “Depuração”. Entre os muitos ataques aos direitos humanos nessas práticas de “Depuração”os levados para a frente contra as mulheres foram dos primeiros. Todas aquelas moças que tinham enamorado com um joven soldado alemão ou tinham tido qualquer relação com eles foram sacadas ás ruas e arrastadas pelas calçadas. Depois de receber  fortes pancadarias, seu cabelo era cortado ao zero, incluso  nalgumas ocassões  lhes fora  arrancado a tiras.

Na França gaullista mais de 10.000 mulheres francesas foram rapadas, humilhadas e exhibidas despidas pelas principais avenidas de París. Em Marselha, uma rapaza foi arrastada nua e golpeada violentamente pela multitude, pela sua própria gente, pelos seus vizinhos, pelos seus compatriotas.

Estas mulheres não eram o inimigo da França aliada, muitas delas, a maioria de não ser todas, nem sequera tiveram nunca relação com as atividades politicas e estratégicas dos colaboracionistas, apenas tiveram relação íntima com os membros das forças da ocupação, mas isso é que era humilhante demais para a França da Resistência. Sobra dizer que os militares franceses nunca foram agredidos em resposta à suas relações com alemanas.

E mesma coisa aconteceu por toda a Europa, casos similares aconteceram em Holanda, na Bélgica, na Noruega, Italia, e, por suposto, em Espanha depois da Guerra Civil.

A tendência pega a volta ao goblo e chega até hoje: a antigua Iogoslavia, Sudão, Congo, Ruanda, Burundi, Darfur, Guatemala, Liberia…

No conflito entre Paquistão e a India.70.000 mulheres puderam ser vítimas da violência sexual no periodo da partição e outras muitas morreram para evitar ser vítimas da mesma, bem cometendo atos de suicidio voluntaria –induzidas pelas  próprias familias– ou forzosamente, bem sendo assassinadas pela familia ou comunidade, como  forma de evitar que o honor das mesmas fosse posto em perigo.

O controle do corpo femenino tem sido uma constante do patriarcado com muitas diversas manifestações, seu uso como arma de guerra é apenas uma delas, como o controlo de sua sexualidad e a consideração do corpo das mulheres como uma propiedade masculina. Mediante o estabelecimento de normas sociais e culturais que sancionam quais são as condutas apropriadas para as mulheres, especial e fondamentalmente no campo da sexualidade, mas também em outros âmbitos, se produz um férreo controlo social que posibilita a perpetuação do sistema patriarcal.

Assim,  o corpo femenino se convirte em cenário de límites e fronteiras entre o permitido e o adecuado socialmente e aquelas atuações que devem ser desterradas. Desta forma, as transgressões são castigadas com o ostracismo e a estigmatização  social, mentres que a aceitação e o acatamento das normas implica o prémio da aprobação e a inclussão nos parámetros de normalidade social. No caso da mulher, esta normalidade inclui qualquer tentativa de manifestar seu posicionamento político, qualquer intento de emancipação, de libertação.

A violência contra a população civil nos conflitos armados não pode entender-se desligada de aquela violência inerente ao patriarcado, não só em tempos de guerra, mas também em ausência de violência armada organizada. A violência tem sido um dos piares fondamentais do sistema patriarcal, desde que serviu para sua perpetuação como sistema de estructuração social dominante.

O despreço patriarcal pelos corpos, ao tempo que estes são utilizados como cenário privilegiado para o controlo social e político da população, especialmente no caso das mulheres, pode valer para explicar no mínimo uma parte deste continuum de violência, embora seja este um parco consolo.

 

O Estado fronte o Decrecemento

Desde a publicación do Manifesto Derradeira Chamada algúns autores teñen apuntado que a crise de civilización á que nos enfrontamos supón pon en cuestión os aparellos estatais, sabedores de que a todo réxime político correspóndelle tamén un réxime enerxético. En concreto, ponse no centro da diana as institución políticas nacidas directamente do Estado do Benestar, pois como ben amosan os datos a tal efecto os estados sociais ou do benestar son grandes consumidores de recursos e moi densos en canto a complexidade. O índice da pegada ecolóxica sérvenos para ilustrar as consecuencias do crecemento económico e o seu impacto sobre o planeta, así pois, mentres que a oferta ecolóxica media a nivel planetario non supera as 2’18 hectáreas por persoa e ano, as grandes economías triplican e incluso cuatriplican esta medida. O primeiro posto deste ranking do ecocidio é para Estados Unidos, cuxo exército é o maior consumidor de petróleo do planeta, e a súa pegada ecolóxica ascende a 9’57 hec. por persoa e ano. Sen embargo Europa non se queda atrás. O vello continente amosa resultados realmente escandaloso, pero o que chama máis a atención aínda é que sexan os países escandinavos, aqueles cuxo nivel de benestar e progreso é a envexa de boa parte dos partidos políticos europeos, os que encabecen a lista. Noruega, Suecia e Finlandia presentan unha pegada ecolóxica de 8’17, 7’95 e 7’00 respectivamente, o que quere dicir que cada habitante destes países consume unha cantidade de recursos cada ano equivalente á produción de entre 8 e 7 hectáreas. Cabe salientar que o 50% da pegada ecolóxica do planeta é froito do consumo de enerxías fósiles, e que estes estados non escapan a esta proporción.

Que quere dicir isto? Sinxelamente que o decrecemento non é posíbel baixo as condicións do benestarismo, cuxa condición sine qua non é o crecemento económico e o consumo. Todo un problema se observamos que a reivindicación material centra a atención de grande parte dos sectores descontentos da sociedade.

Se ben o escenario de cara ao discurso do decrecemento mudou nos últimos anos, o que debera ser o eixo central de todas as políticas económicas continúa relegado a un segundo plano, tal e como aconteceu no seu día coas teorías do “desenvolvemento sostíbel”. Tanto ten que os gobernos vistan bandeiras de esquerdas ou dereitas, o elemento central do debate en calquera dos dous casos adoita ser a relación do Estado cos capitais privados e as entidades financeiras, de onde nacen diferentes enfoques da política social. Como primeiro punto nunha intensa orde do día, deberamos conseguir que o decrecemento non remate por ser unha ferramenta comunicativa máis que os partidos empreguen para gañar os votos dun electorado descontento, sen unha implicación real sobre o problema. Algo que xa de por si, pretende facer o Manifesto.

Por outra banda a propia evolución do Estado nestas últimas décadas, baseada na complexización, na centralización e na súa extensión á práctica totalidade dos aspectos da vida social do individuo, trouxo consigo consecuencias devastadoras no que respecta á autosuficiencia (aínda que for parcial) das comunidades humanas tradicionais, asentadas en territorio rural. A sociedade de consumo e o progreso económico creados en paralelo ao Estado de Benestar foron grandes factores de concentración urbana, o que implicaba maior uso de enerxía, ao tempo que deixaba sen relevo xeracional culturas populares próximas á autoxestión e á vida comunitaria desprazando os nosos modelos de vida cara a constitución do Homo Economicus e das sociedades de consumo e da abundancia é dicir: construíron a golpe de adoutrinamento escolar e marketing publicitario un suxeito cuxas aspiracións concordan cos obxectivos do capitalismo actual.

Todxs sabemos que o decrecemento non aporta votos. Que advertir a alguén de que debemos mudar o noso modelo de mobilidade para adecuarnos aos limites ecolóxicos do planeta, ou que non podemos manter cidades hiper densificadas porque abastecelas provoca un gasto enerxético insoportábel, ou que aumentar os postos de emprego na industria é inoportuno… non xera simpatías, e menos nunha poboación que se cada vez máis privada de recursos económicos. Por iso, pregúntome que irán (iremos) facer as candidaturas que facemos noso o decrecemento como alternativa para responder eficazmente ao exercicio de accountability que, abofé, a cidadanía vai levar a cabo no caso de lograr poñer en marcha ese programa decrecentista que tan ben enunciou Florent Marcellesi nun artigo publicado recentemente.

Pode que esta pregunta atope difícil solución no marco da institución-Estado na que vivimos, xa que esta, defínese pola dualidade maioría-desorganizada e minoría-organizada. Unha minoría que ocupa os aparatos do Estado e na que a maioría deposita a lexitimidade e, o que é mais importante, a responsabilidade sobre os asuntos comúns.

Exemplos deste caso podemos observalos en América Latina: A defensa dos ecosistemas de Rafael Correa choca coa realidade de ter que asegurar “condicións de vida dignas” para os habitantes das cidades, e para iso crea unha empresa (Petroamazonas) que arrasa o territorio Yasuní e pon a modelos de vida indíxenas sostíbeis en perigo de desaparición, faino para cobrar mais soldo? para adquirir beneficio? Non. Faino para garantir o aumento do nivel de vida da súa poboación. Algo semellantes pasa na Venezuela, onde o goberno bolivariano so pode costear a súa política social por medio da extracción de petróleo que sustenta o progreso económico chinés e indio.

Por outra banda, tampouco semella que obviar por completo as institucións do Estado como lugar de referencia e lexitimidade para construír realidades políticas diferentes vaia ofrecer froitos, pois de nada vai valer discutir en pequenos círculos ou comunidades un camiño de cara ao decrecemento se non somos capaces de enchelo de soberanía política. Isto podería levar a converternos en cómodos adversarios do crecemento, enfrascados nun discurso posto en práctica unicamente a pequena escala mentres o mundo continúa xirando (e medrando) ao noso redor. Por desgraza, estamos condenados a movernos nun terreo de xogo que non escollemos nós.

Umha vissom holística da Saúde como crítica á modernidade médica

Em “vida líquida”, Zygmunt Bauman achéganos umha análisse do modelo emergente de sociedade que habitamos. Umha sociedade na que surpreende a velocidade em que convertemos aspeitos, anteriormente solemnes da vida pessoal e coleitiva, em objectos de consumo. A saúde nom escapou desta captura monetarista, em cambio foi reformulada em amplos complexos hospitalarios, clínicas hiper-tecnoloxizadas, custossísimos laboratorios e, como nom, umha industria farmacéutica poderosa, verdadeiro sujeito activo dum processo de medicalizaçom da contorna social que tentaremos explicar mais adiante.

 

 

Para poder ponher em práctica este modelo de sanidade, primeiro houvo que estabelecer a distancia necessaria entre médico e paciente, o que implica extirpar da sociedade a preocupaçom pola saúde, ao tempo que se estabelece na profissom médica a responsabilidade total do nosso estado de saúde. Este acto delegativo tivo suceso graças ao auge da ciencia médica moderna, exposta como verdadeira joia do gram projecto moderno. O que queremos fazer aquí, nom é negar as vantagens que, efeitivamente, troujo o avance científico, mas sim que questionaremos o alcance e a direcçom destes avances, pois contrariamente ao que as apariencias do progresso sugirem, nom é tam certo que o nivel de saúde da povoaçom tenha aumentado sensívelmente nas últimas 5 décadas. Em realidade o que sim tem mudado é o signo das enfermidades que hoje sufrimos (xs occidentais) e que estám fundamentadas sobre o modelo de vida que nos deixou a sociedade industrial. A aceleraçom dos tempos no cotidiano, deu lugar a toda umha gama de enfermidades vinculadas ao estresse e o sistema nervosso, que ademais tem repercussons nas arterias coronarias. A respeito disto, Larry Dossey diría:

 

 

A sensaçom de urgencia fai que se aceleren algunhas das nossas funçons corporais rítmicas, coma o ritmo cardíaco e o respiratorio. Isto pode levar a umha subida exagerada da tensom sanguínea, junto có aumento do nivel em sangue de determinadas hormonas vinculadas ao estress. E assím, a nossa percepçom do relojo que se acelera e dos tempo que se escapa fai que os nossos proprios relojos biológicos se acelerem á sua vez. O resultado final reviste con freqüencia umha ou outra forma das “enfermidades da presa”: enfermidades do coraçom, tensom alta ou depressom da funçom imunológica, que conduce a umha maior vulnerabilidade com respeito a todo tipo de infecçons e cancros.”

 

 

Esta aceleraçom dos tempos podemos entendela coma umha conseqüencia do maquinismo no trabalho assalariado. Pois como sabemos nos centros de emprego moderno os ritmos do trabalho exigidos aos operarios venhem marcados pola eficiência produtiva da máquina. Na actual sociedade tecno-industrial na que vivemos, esta relaçom entre home e máquina trascendeu o ambiente da fábrica; está no consumo por medio da obsolescencia programada, está no transporte, na procura de medios para movernos mais rapidamente, está na escolarizaçom, nos programas de excelencia, está nas políticas macroeconómicas dos estados, na sua inquina por aumenta a eficacia aínda ponhendo em risco a saúde das pessoas. Em definitiva, a cidade fábrica atual está atravessada em si mesma pola lógica da aceleraçom dos tempos. O tempo moderno desliga ao home dos bio-ritmos naturais e sitúao num contexto produtivista onde o tempo tam so se mide em funçom da sua rendibilidade económica. Neste cenario o habitante moderno é moviliçado constantemente cara á dinámica produçom-consumo, dinámica alimentada polos valores meritocráticos nos que o individuo é sociliçado.

 

 

A poucxs devera surpreender entom que o consumo de antidepressivos experimentara um aumento sem precedentes desde a extenssom da sanidade a todos os sectores da sociedade. Isto é fruto da resposta da medicina a estas enfermidades de novo signo que passa sempre pola compreensom da enfermidade como um accidente no decurso dumha vida “normal”, e a conceptualizaçom da mesma unicamente a nivel molecular. Desde a medicina téndese a paliar os sintomas como único jeito de combater á enfermidade, e nom fai nengum esforço em chegar a umha compreensom integral da saúde humana, cruçada por centos de variáveis: nivel socioeconómico, disponhibilidade de tempo livre, forma de consumo, autovaloraçom da propria saúde, atomizaçom social… Nos centros médicos a soluçom sempre vém da mam de complexos compostos químicos.

 

 

Mas é que esta perspectiva médica é a conclussom mesma do projecto moderno que, obedecendo ao solipsismo cartesiano, desliga a realidade corpórea da mente, inabilitando aos profissionais da medicina para levar a cabo unha vissom holística da saúde, e negando a necessidade de chegar a um bom estado mental para assegurar umha boa evoluçom da saúde e viceversa, ou de apreender por nós mesmxs a conhecer o nosso corpo. Isto nom acontece noutras culturas como a chinesa, onde se fai especial fincapé na conexom entre corpo e mente e que produciu umha medicina tradicional eficiente e barata. Neste sentido é precisso dizer que por medio da especiliaçom e a burocratizaçom, tennos afastado deste caminho, pois quanto mais especialiçada é a atençom, menos integral pode ser.

 

 

Um artigo a parte merecería a relaçom do home moderno com a biosfera e a sua contorna natural. A respeito da saúde, a relaçom entre humanidade e natureça passou a ser de confrontaçom, em quanto até nom há muitas décadas, no nosso País era essa mesma natureça a que nos fornecía de produtos naturais que se empregavam para paliar problemas de saúde e que, aínda reconhecendo a relativa escaseza de seu ámbito curativo (por outra banda infravalorada) suponhía um modelo de medicina ecológica, popular, sustentável e achada por medio de séculos de experiencias colectivas, fronte ao actual racionalismo que nos condea á ignorancia no que respeita ao extenso patrimonio da cultura popular.

 

 

Nom há que esquecer tampouco que o sector sanitario é um dos maiores da nossa economía. Grandes custos que se traducem em grandes interesses para uns poucos, é por isso que paga a pena prestar atençom ao processo polo qual se “acha” umha nova enfermidade, e neste eido devemos reconhecer o influínte papel da industria farmacéutica: Em primeiro lugar dévense reunir umha serie de sintomas que se deam em conjunto de forma mais ou menos regular. A seguir é precisso colocarlhe um nome que defina esse conjunto de sintomas. Para convencer á povoaçom do risco desta “nova doença” empréganse medios de comunicaçom, artigos de investigaçom médica etc. Por último, sai ao mercado um novo fármaco que “cura” a doença, é dizer, elimina os sintomas. Advírtase a bondade do autor ao colocar nesta orde os episodios de criaçom dumha nova enfermidade, posto que em nom poucos casos, o último dos passos adiántase até o segundo e até o primeiro. Um autor clave com respeito a isto é o austríaco Iván Illich, quen nos ano 70 já se preguntara pola realidade das enfermidades iatrogénicas, isto é: causadas polo proprio sistema sanitario que hoje por hoje estám em ascenso, publicando umha obra baixo o título de Némesis médica.

 

 

O estado geral da saúde reclama umha mudança radical de paradigma que começa por começar a preocuparnos em colectivo polo nosso corpo e mente, isto ademais nom se deve fazer partindo da mesma base da medicina experta, senóm entendendo a enfermidade coma um processo ao que chegamos por todo um conjunto de motivos biológicos, sociais, psicológicos… ligados com a nossa forma de vida e o nosso entorno. Os expertos da ciencia médica nom reparam na pessoa enferma. Umha saúde holística tem por necessidade imperiosa começar a fazelo, e para isto é clave rematar com a influença tam enorme que as empressas farmacéuticas tem sobre os nossos corpos. Inclusso neste eido a recuperaçom da soberanía e plena consciencia é a chave. Mas este artigo tam so apunta aos inicios, tudo o resto está por escrever.

 

 

 

Henrique Lijó

 

 

 

De como as luditas andavam bem encaminhadas…

Um día qualquer numa fábrica qualquer, num ano qualquer do século XIX.

  • Onde é que vas com esse martelo?

  • Vou despedaçar essa máquina.

  • E então? Por que é que queres despedaçar a máquina do patrão?

  • Eu a vou despedaçar porque a máquina levou-me um dedo quando trabalhava nela ontem à noite. Eu estava cansada, mas a máquina não parava. Eu devía atender a ela, e ela não parava, ela levou-me o dedo com ela, e ela não parou. Agora ela vai parar.

  • Mas voçe não deve fazer isso. Essa é umha resposta impulsiva e imediata, nada vai lograr com isso.

  • Entom que é o que eu devo fazer?

  • Voçe primeiro tem de tomar consciência do que voçe é que é. Uma operária de fábrica. Voçe é parte da engranagem capitalista, voçe é parte da classe explorada, voçe é proletária, e a sua consciência deve ser também proletária, voçe deve pensar nos seus interesses, e não atuar por impulso.

  • Está bom tudo quanto voçe diz, mas não posso eu romper a máquina mentres pego na consciência?

  • Não! Isso é primitivo! Isso é atuar como atuaría um animal anojado. Faça favor.

  • Pronto! O que é que eu devo fazer para tomar consciência? Que é que eu posso fazer para não haver mais operárias com mais dedos de menos?

  • Voçe tem… Voçe tem… Voçe tem que se afiliar ao sindicato, e depois se afiliar ao Partido. E assím voçe será umha operária com consciência.

  • E isso que é que tem a ver com a máquina?

  • Tudo! Voçe afilia a sindicato, vota partido e… paga as quotas do partido, e vai poder falar para as massas do é que se passa na fábrica.

  • Eu vou poder falar?

  • Eh… Voçe não, mas os intelectuais, os quadros, os líderes do partido e do sindicato, eles é que vão falar por voçe do que se passa nas fábricas. Eles savem da exploração, das teorías, do Poder…

  • Mas a máquina ai continua!

  • não! Continua agora, sim. Mas se voçe fizer isto, voçe e muitas coma voçe vão fazer o Partido cheguar ao Governo, e daquela o Governo vai fazer uma lei que proiba as máquinas que apanhem dedos, e depois, com certeza, voçes defenderão o Governo fronte aos capitalistas, e depois faremos as máquinas serem suas, e depois faremos a riqueça ser sua, e depois o Governo dissolver-se-á e voçes poderão romper as máquinas. Então voçes ser livres.

Um dia qualquer, numha cidade-fábrica qualquer, num ano qualquer do Século XXI durante uma manifestação:

  • não esnaquiçe voçe essa caixa automática!

  • Por que?

  • Porque isso é primitivo…

 

Cánabis, história duma incoerência

Israel grows medicinal marijuana in Safed

Cánabis é um gênero de angiospermas que inclui três variedades diferentes: Cánabis sativa, Cánabis indica e Cánabis ruderalis, nativos do Centro e do Sul da Ásia.

A Cánabis tem sido muito utilizada para a fabricação de fibras (cânhamo), para sementes e óleos de sementes, para fins medicinais e como droga recreativa.

Os produtos industriais de cânhamo são feitos a partir de plantas de Cánabis selecionadas para produzir uma grande quantidade de fibras.

As plantas Cánabis produzem uma família única de compostos terpeno-fenólicos chamados canabinoides. Os dois canabinoides geralmente produzidos em maior abundância são o canabidiol (CBD) e o Δ9-tetrahidrocanabinol (THC), mas apenas o THC é psicoativo. Embora a produção global de canabinoides seja influenciada por fatores ambientais, a relação de THC/CBD é determinada geneticamente e permanece fixa durante toda a vida de uma planta. Plantas que não são usadas como drogas produzem níveis relativamente baixos de THC e altos níveis de CBD, enquanto as plantas voltadas para o uso como drogas produzem altos níveis de níveis de THC e baixos de CBD. Ambos os dois tipos são suscetíveis de usos medicinais.

O relacionamento da Humanidade com o consumo e uso do cánabis remonta a mais de 6.000 anos atrás, por contra, a sua proibição pruduziu-se apenas a começos do século XX.

Durante a história, os humanos usaram o cánabis como matéria prima para a fabricação de elementos como cordas, papel e mesmo roupa. Para além, os seus princípios medicinais eram também conhecidos e utilizados desde antigo. Moitas culturas usavam também o cánabis como elemento ritual em celebrações religiosas e exercícios chamánicos e mágicos.

A respeito dos beneficios médico-farmacológicos, tem sido provado cientificamente que frena o crescimento dalguns tumores cangerígenos, reduce a possibilidade de contraer diabetes e melhora os níveis de açucar nos já diabéticos, é um estupendo paliativo no caso de enfermidades de base neurológica e inflamatórias, que cursam com múltiples dores, como a fibromialgia, a esclerose ou a migranha, combate o glaucoma ao reduzir a pressão intra-ocular, favorece a dilatação pulmonar em pessoas com processos asmáticos e mesmo favorece a sobrevivência neuronal, o que seria uma grande ajuda na luta contra o Alzheimer. Para além, tem propriedades ansiolíticas, antidepressivas e sedantes, sem presentar os efeitos aditivos nem secundários da farmacologia clássica.

Daquela, a pergunta é, quais foram os motivos oficiais porque de repente o cánabis foi considerado tão perigoso que deveu ser proscrito?

Entre os motivos “oficiais” que levaram à proibição do cánabis, no seu uso terapêutico e recreativo, estão:

-A sua capacidade de adição. Isto é falso. O cánabis não produz adição fisicamente, e psicologicamente produz a mesma que pode produzir qualquer coisa que nos resultar gostosa, como praticar sexo, tomar sobremesa ou qualquer atividade de ócio. Ainda, as pessoas a tratamento com ansiolíticos e antidepressivos clássicos, tipo Prozac, diazepam, lorazepam, etc, é que se vêm em processos de adição graves, física e psicológica, e os efeitos produzidos pela sindrome de abstinência acabam por levar a estas pessoas a novos processos de ansiedade e a padecer trastornos físicos que os deixam altamente incapacitados, entrando numa espiral para a qual a farmacologia tradicional não tem qualquer solução (ou precisamente a solução é não ter solução?).

-Toxicidade. É certo que não se pode presumir a inocuidade do cánabis, como também é certo que não podemos presumir a inocuidade de qualquer produto, em todo momento e circunstância. Para um diabético, um bolo de chocolate pode ser perigoso, o mesmo para um celíaco, e para um alérgico às nozes, um anaco dela pode ser mesmo mortal. Para compensar, a possibilidade duma sobredose fatal por consumo de cánabis é impossível, mentres, na farmacologia tradicional, as doses de segurança dos medicamentos que tomamos a diário são relativa e perigosamente baixas (a dose de segurança é aquela que não produz sobredose, mas não há dose de segurança que não produz efeitos secundários).

-Dana o organismo. Falso. Não há relação entre o consumo de cánabis e nenhum dano físico, como pode se inferir do consumo do álcool ou do tabaco, produtos, que, embora, sim são legais. De facto, não há notícia de nenhuma morte  direita ou indireitamente relacionada com o consumo de cánabis. Pelo contrário os efeitos secundários dos produtos farmacológicos usados nos utentes da medicina convencional são tão importantes que acavam desenvolvendo novas doenças. É fácil que um consumidor habitual de anti-inflamatórios sofra de problemas hepáticos e renais graves, que os consumidores de analgésicos tipo triptanos sofram graves complicações gástricas, etc, etc, etc.

-Capacidade para induzir à esquizofrénia ou a alterações mentais. As pessoas com antecedentes familiares destas correm maior risco desta droga desencadear a doença, mas os estudios desenvolvidos não acharam qualquer relação entre o uso do cánabis e a aparição de enfermidades mentais em pessoas sem antecedentes.

-Dificultade na aprendizagem e perda de memória. A respeito da capacidade de aprendizagem e memória, os estudos indicam que no caso dos adultos, ou bem estes não se produzem, ou de se produzirem, são reverssíveis incluso depois de longos periodos de consumo. Há que ter em conta, embora, que estes problemas sim podem aparecer no caso de o consumo se dar em adolescentes ou adultos menores de 20 anos.

-Causa condutas violentas. Isto também é falso, não há qualquer prova de o cánabis ter a capacidade de alterar tanto a capacidade emotiva como para virar  uma pessoa habitualmente pacífica em violenta. Esta crença é provável que derive da lenda dos “hashisiens”, de onde deriva a própria palavra assassino. Estes, eram mercenários que realizavam seus trabalhos para os senhores tribais na suas disputas e vinganças. Tudo quanto rodeava a este grupo era tremendamente secreto, realizavam ritos de iniciação e sim eram consumidores de haxixe, o qual deu por pensar que era este o motivo de atuarem com tal violência, mas o caso é que tinha muito mais a ver com este resultado o facto de serem adoutrinados e convencidos de que as suas empresas teriam como prémio o paraiso. O fanatismo religioso tinha muito mais a ver no desenlace violento do que o consumo de haxixe.

-Aumenta o apetite sexual. Depende do sujeito, da circunstâncias prévias, do momento, etc etc etc. Mas, embora assim for, não deveria ser isto um problema quando a indústria farmacéutica tem um medicamento aprovado pelos registos sanitários com este memsmo efeito médico, para além de outros prejudiciais.

Até aqui, a versão oficial dos motivos para a sua ilegalização. Vejamos agora os “oficiosos” e a que critérios atende.

O cánabis é hoje em dia a droga ilegal mais consumida do mundo e até começos do século XX ninguém se tinha preocupado por ela nem pelos seus “nocivos efetos”, mas foi nesta altura que a elite estadounidense achou nesta planta muitos interesses, tantos, que havia que buscar motivos para a proibir a sua livre produção. O motivo oficial favorito para a proibir, a sua psicoatividade. Os motivos reais, interesses económicos, religiosos, sociais e mesmo raciais.

-Raciais. O cánabis era consumido maioritariamente nos Estados Unidos por minorias étnicas, nomeadamente mexicanos e caribenhos. Entre outras, os médios de Hearst diziam maravilhas como estas:

“Negros e mexicanos viram bestas desesperadas sob os efeitos do cánabis”

“A mari juana dá valor aos negros para mirar à cara aos brancos, e mais do permissível às mulheres brancas”

“Jazz e consumo de mari juana vão unidos, por tanto o jazz é tão diabólico como a própria droga”

“O motivo fundamental para proibir a marihuana é seu efeito negativo nas raças degeneradas”

“A marihuana faz acreditar aos escuros serem tão bons como os brancos”

Em plena Depressão económica, com um índice de paro nunca visto, os imigrantes mexicanos eram vistos como intrusos, usurpadores dos recursos e do pouco emprego que “legitimamente pertencia aos americanos”. A campanha difamadora contra eles, foi amplamente aceite pelos cidadãos desesperados pela crise. Deste jeito, a ilegalização das drogas foi também uma excelente excusa para controlar e reprimir as minorias mediante a proibição e criminalização dos seus costumes.

-Económicos. Por volta de 1910, William Randolph Hearst, um magnate da prensa sensacionalista norteamericana inicia a sua guerra contra a “mari juana”. A razão? Este era um produto consumido pelos homens de Pancho Villa, e este, expropiara para a causa revolucionária umas 30.000 ha da familia Hearst em México. Os jornais e os distintos médios de comunicação sob o poder de Hearst começa a cuspir prejuiços contra o uso do cánabis e seus consumidores.

Aliás, o invento da descortiçadora de Schlichten implica que agora o cultivo do cânhamo seja uma ameaça para a indústria do algodão, por um lado, e para a indústria madereira destinada à produção de papel, por outro, ambas as duas fortemente ligadas aos lóbis mais influintes naquela altura. E ainda há mais. A família du Pont, proprietária da mais importante indústria petroquímica dos Estados Unidos tinha já na altura a patente dos tecidos sintéticos como o nylon ou o rayon. A família du Pont passou a se encarregar também da General Motors, competidora da Ford. Daquela, a Ford estava a investigar a criação de combustíveis e azeites industriais derivados da biomassa do cânhamo, o que implicaria uma grande competência,e possivelmente a ruina,  para as grandes empresas petroleiras, como a Gulf Oil, propriedade da família Mellon, um de cujos membros era Andrew W. Mellon, Secretário de Estado entre 1921 e 1932 e banqueiro, entre cujos principais clientes estavam, oh,  surpreesa!! A família du Pont.

Aproveitando o seu  cargo e influências politicas, Andrew W. Mellon cria o cargo de Comisário do Escritório Federal de Narcóticos (curioso, porque o cánabis não é um opiáceo, e por tanto não poderia ser considerado de narcótico) dependente do Departamento do Tesouro, colocando nesta vaga ao seu sobrinho político, Harry H. Anslinger. Procurava ilegalizar o cánabis e tivesse a consideração da cocaina ou heroina, para borrar o seu cultivo do mapa e a sua produção do mercado. Com isto, os tecidos, papel, biocombustível e demais produtos feitos de cânhamo deixariam de ser uma compentência importante para os interesses das famílias du Pont, Mellon e Hearst, entre outras.

Somemos a isto que os agentes do Buró do Álcool, criado para lutar contra as máfias nascidas da Lei Seca, estavam agora inoperantes. Ainda, os cárteles e sindicatos do crime organizado nascidos á sombra da Lei Seca estavam também sem campo de ação. Uma boa saida para ambos  era criar outra lacra contra a que lutar, os uns manterias a sua pertinência, os outros, o seu lucro económico do tráfico ilegal.

A pressão desta elite e dos grupos ultra-direitistas que os financiavam provocaram que em agosto de 1937 o congresso americano aprovasse a Marihuana Tax Act, proibindo seu consumo, possessão e comercio a nível Federal.

Mas não todo o mundo estava dacordo com a medida. Por exemplo, o alcaide de Nova Iorque, Fiorello Laguardia, encomendou um estudo científico independente. No 1944, após 6 anos de investigações médicas, sociológicas, psicológicas e farmacológicas, concluiram que o consumo de marihuana não tinha nenhum efeito dos descritos pelos promotores da proibição, não conduzia a qualquer comportamento violento, nem anti-social, nem alterava a estrutura básica da personalidade.

Às vistas destes resultados, Anslinger curou-se de outros similares impedindo outras investigações ao restringir o subministro de marihuana para estes fins, assim como para fins de investigação puramente médica. Nessa altura, e aproveitando o surgimento da Guerra Fria, Anslinger cambia de tática, agora declara que o uso do cánabis faz aos consumidores tranquilos e pacifistas, declarando que os comunistas introduziam a droga no país para conseguir que os americanos perdessem sua vontade de lutar, afirmando sem empacho: “A marihuana leva ao pacifismo e ao lavado de cerebro por parte dos comunistas”. Curiosa droga esta que te faz violento ou pacifico dependendo da situação geopolítica….

Aparentemente, esta foi também um dos motivos aos que se achacara o insuceso do movimento hippie. A introdução do consumo maciço desta substância. Motivo infundado, evidentemente. O movimento hippie destruiu-se a sim próprio por um mal entendido conceito do pacifismo, confundindo tal com a inatividade mais absoluta.

Já no 1961 Anslinger utilizou a influência politica de Estados Unidos na ONU para que os países unificaram suas políticas anti-droga num tratado único que ilegalizou o cánabis no mundo inteiro.

Por essas troças do destino, Anslinger foi despedido pelo presidente Kennedy. A voz em off conta que devido à afição do mesmo ao consumo de cánabis, sendo isto um rumor do que se carece de provas.

A história da proibição do cánabis está cheia de racismo, medo, preservação dos beneficios económicos das grandes empresas e jornalismo sensacionalista.

Na atualidade, os interesses das indústrias mundiais, nomeadamente a farmacéutica e a petroquimica, continuam a atuar como lóbi para evitar a legalização da produção, mercado e consumo do cánabis, com a especial incidência das farmacéuticas, que têm as patentes dos derivados do cánabis.

Que é que significa o movimento pró-legalização?

Para começar, não há um único movimento pró-legalização, mas vários que diferem nos seus objetivos. Os movimentos mais clássicos vinculam sua luta com os fins terapéuticos do cánabis, e apenas procuram  a sua legalização sob controlo estatal.

Os movimentos mais atuais procuram a liberdade no auto cultivo para consumo próprio, sem intermediação estatal, como ocorre com qualquer outro produto.

Axiomáticamente, o “sistema liberal” entra numa grave contradição, como de costume, ao interferir na vida privada das pessoas, mas nesta ocassão, como noutras, é por uma boa causa, preservar os interesses da elite dominante.

Se nos referirmos a toxicidade ou perigosidade, há multitude de produtos que deveriam ter sido proibidos antes da própria maconha, começando pelo ácool, o açúcar refinado, as gorduras hidrogenadas, os organismos genéticamente modificados, as bebidas altamente cafeinadas, os produtos fitosanitários com que se “cozinham” os produtos agrários no mundo inteiro, por indicar só algum exemplo que todos temos em casa.

O estado, embora, como pai amoroso, é que decide o que é bom e o que é mau para nós. É quem decide que veneno podemos e mesmo devemos tomar, patrocinando e promovendo o consumo de muitos produtos realmente prejudiciais.

Apelar ao critério da violência para manter a sua proibição também não se sostem. Os movimentos proibicionistas apenas servem para criar tráfico ilegal, máfias e corrução a nivel político e público, para além de criminalizar a usuários, tanto para quem acudir a ela com fins terapéuticos como quem acoda com fins lúdicos, sem qualquer base científica. A proibição é injusta e inefetiva, com enormes custes económicos e problemas sociais.

 

Não podemos defender que o uso do cánabis esté livre de riscos, como qualquer outra atividade humana, muitas das quais são perfeitamente aceitáveis e mesmo promovidas socialmente.

É certo que ninguém necessita fumar maconha com fins lúdicos, como ninguém necessita tomar bolo de chocolate, ver um filme ou outra atividade de ócio. Ou sim? Quem decide voluntária e libremente consumir maconha, deveria ter a liberdade de o fazer. Trata-se duma questão de livre eleição que não teria de estar sob a decissão e a intervenção arbitrária do Estado. Mas a nossa “cultura politica” não tem problemas para aceitar que o Estado ejerça este poder “legítimo”, que a sua palavra seja lei e controle o que cada pessoa, como ser livre, capacitado e autónomo que é, decida ou não consumir.

Confio nos meus iguais. Confio em que são capazes de discernir que é o melhor para eles. Comentava-me um amigo no outro dia que ele não fumava maconha por que lhe sentava mal. Atitude lógica, madura e coerênte pela sua parte. A mesma razão pela que eu não tomo vinho branco nem milho doce. O que também não podemos fazer é refletir nos demais as nossas limitações. Não seira lógico eu iniciar uma campanha contra o vinho branco por a mim me causar migranha, do mesmo jeito que o meu amigo apoia a legalização embora ele não consuma.

A isto se chama, em resumo, liberdade.

 

 

 

Humanidade: Uma história de violência

Como seja que não me considero mais lista do que o resto, sei que quem leia este artigo perceberá  ao direito a diferença entre mostrar as falhas das vitórias pacifistas e se posicionar do lado da violência.

O problema da violência é que, apesar de ser um conceito tão repulsivo que todos repudiamos de entrada, não somos capazes de definir de modo categórico  e inequívoco o que é.

Em primeiro lugar, quando nos posicionamos contra a violência temos de definir se somos contra qualquer forma dela, sempre e em todo lugar, ou se pela contra, a violência vai ter de ser aceite nalgum contexto, tendo em conta que vivimos num mundo imperfeito cheio de pessoas mais imperfeitas ainda. Mas, de aceitarmos alguma manifestação de violência, quando, como , onde e em que medida estas vão ser aceitáveis? E o mais importante, quem vai determinar o que é violência, e o que não? Quem, como  e com que interesses é regulada a conceitualização jurídicas de preceitos como terrorismo, resistência, desobediência? Como é que estes conceitos acabam por ser vendidos à sociedade, que os asimila sem qualquer questionamento?

“A violência apenas cria violência”. A gente manifesta esta consideração com toda a razão e legitimidade, mas, mentres dizimos isto, apoiamos exércitos, apoiamos guerras fratricidas, porque, total, sempre são os outros os que sofrem e morrem, apoiamos a invassão e a intervenção militar em  paises estrangéiros, e apoiamos, por fim, um sistema económico que se nutre fundamentalmente do constante e genérico emprego da violência contra as pessoas e o médio, de jeito massivo e indiscriminado. E, com isto, defendemos um sistema de patriarcado que, em  última instância, não faz mais do que legitimar a violência endêmica sobre mais da metade da população.

E contra a violência, temos a não-violência. Se calhar, é este parte do sistema a que mais adoece de reflexão.  A não-violência é um artigo de fé, que acostuma ir sempre num só sentido. Apenas os oprimidos parecem ter a obriga de ser pacíficos, pacifistas e não-violentos. Destarte, os negros tem de responder pacificamente aos ataques da supremacia branca, a mulher tem de se resistir passivamente à violência patriarcal e todos temos de ser não violentos ante as agressões do agressivo capitalismo e do Estado opressor.

Qualquer outra atitude, seria fomentar a violência.

Mas tirando por esta via, estariamos a catalogar como ato violento a própria auto-defesa.

De um desconhecido me agredir numa rua solitária a altas horas da madrugada, eu me defender, e essa defesa causar uma lessão ao meu atacante, estou a ser violenta?

E no caso de um bulldozer pretender destruir a minha casa inclussive com minha familia dentro, sou violenta de me enfrentar a essa agressão? E quando me resisto a abandonar o meu fogar ante uma ordem de despejo legal mas injusta, sou violenta? Seriamos pacifistas  e ergueriamos as mãos ao céu caso de uma força militar estrangéira ocupar nossas ruas e nossas vidas?

São muitas incógnitas de mais.

Dum ponto de vista pacifista, todas são atitudes violentas.

Não há qualquer dúvida. Estamos num cenário muito complexo, onde, dependendo da beira do rio da que miremos uma mesma ação pode ser considerada violenta ou não. É evidente quem marca esses limites, e quem determina em que momento  qual ação pode ser considerada de violenta. E não sou eu esse quem, nem os meus pares. E quem estabelece essas condições faz ao comúm comungar com elas.

O Estado é quem monopoliza o uso e a categorização da violência. Frente a ele, os movimentos pacifistas pretendem legitimamente transformar a sociedade rexeitando qualquer ato que entre nesta categoria.

Através da História, nomeadamente  na segunda metade do século XX, os movimentos pacifistas multiplicaram-se, e mesmo lhe foram atribuidos alguns sucessos históricos. Vamos fazer um repasso dalgum dos mais relevantes.

Gandhi e a India, são, possivelmente, a manifestação mais conhecida de posicionamento pacifista, e, se calhar, também dos mais manipulados dum ponto de vista histórico, o mesmo que nos faz acreditar que a India foi liberada apenas pela ação pacifica de Gandhi e seus seguidores. Ambas partes deste enunciado têm fugas.

Para começar, a India nunca foi liberada realmente, mas a supremacia branca do Imperialismo mundial está muito interessada em uqe esta seja a única versão da história, quando a realidade é que os británicos nunca abandonaram  a India, simplesmente transferiram o controle colonial direto para um régimen neo-colonial, redigiram a nova constituição e entregaram o poder aos seus sucesores, evidentemente, escolhidos pelos ingleses. A India continua a ser explorada e provendo recursos e mercados para o imperialismo.

E para acabar, realmente nesta mudança tiveram influença muitos outros movimentos para além do pacifista de Gandhi, e a retirada británica esteve mais influenciada pelas pressões violentas dentro da própria India e pelo desgaste que supûs naquela altura as lutas armadas surdidas na Palestina que debilitaram  a um exército británico recém saido da II Guerra Mundial, e no  perigo que viam em este jeito de luta se lhes estender ao território indiano.

Outro caso paradigmático foi a luta pelos direitos civís dos negros nos Estados Unidos de América. No 1961, Martin Luther King Jr.  e o seu movimento iniciaram  uma campanha de desobediência civil pacífica por nove meses, e que acabou quando em julho de 1962 grupos de jovens tomaram as ruas obrigando às forças de polícia a se retirarem dos ghetos.  Mas não seria até os disturbios de maio de 1963, quando em resposta a uma continua violência policial a população negra decidiu contra-atacar, que a cidade de Birmingham concordou deixar de segregar as lojas do centro.  Tristemente,  a população negra tive de dizer que não ficaria mais pacifica para sempre para que J.F Kennedy mandara ao Congresso aprobar o Decreto dos Direitos Civís.

O Vietnam foi outro mito do pacifismo. A crença histórica é que os protestos pacíficos forçaram  a retirada das tropas americanas, mas o caso é que neste desenlace tiveram muita mais importância as rebeliões protagonizadas por negros, latinos e indígenas dentro do próprio exército, e o fragging levado para a frente por estes grupos, que atuaram  como atores da resistência militante que debilitou ao exército americano por dentro, para além, evidentemente, da continua resistência violenta vietnamita.


Para resumir, foram necessárias algumas ações violentas para procurar uma solução, que nunca foi tal, a conflitos artificiais, que nunca teriam aparecido sem a vontade e a intervenção direta dos Estados promotores.

A Humanidade tem um problema com a violência. Temos um problema desde que a punição por estuprar uma moça é menor do que a de estuprar um trapo, desde que queimar uma caixa automática é merecedor de mais castigo do que prender lume nas Fragas do Eume.

Temos um problema, não apenas de violência, mas de prioridades, de empatia e corência.

Porque quando os civís americanos pediam a retirada das tropas do Vietnam  não estavama pensar no sofremento dos vietnamitas, mas apenas no dos seus concidadãos, e os pacifistas que se manifestaram anos atrás deixaram de o fazer quando as tropas se retiraram e se desentenderam da maior campanha de bombardeios da história (orquestrada pelo Prémio Nobel da Paz, Henry Kissinger) ou da posterior ocupação de Vietnam do sul através da ditadura financiada e desenhada pelos Estados Unidos de América, se desentenderam de Chile, da Argentina, de Panamá, de Nicaragua, do Salvador, do Afganistão, do Kurdistão…

Quando acreditamos que os injustificavéis atentados na Irlanda, em Nova Iorque, em Madrí, em Nairobi, em Londres…são mais injustificáveis do que os bombardeios de Hiroshima, de Berlím, de Afganistão, de Iraque, temos um problema.

Desde que pedimos a paz e nos posicionamos contra a violência mentres fechamos os olhos aos feminicidios em México, em Guatemala, em Honduras, mentres fechamos os olhos aos estupros maciços em África, na India, às penas de morte decretadas por “democracias” que colorariam de vergonha ao mesmo Lucifer, mentres fechamos os olhos aos xenocídios em Ruanda, Burundi, Congo, Timor, Palestina, Sahara, Palestina, Kurdistão, os Balcãs, temos um problema, e deveriamos nos questionar se nessa condenação e rexeitamento da violência tem realmente qualquer coisa a ver com o repúdio à violência ou se renegamos apenas da violência exercida por um determinado grupo e com uns determinados objetivos. Porque, o primeiro, é muito legitimo e defendível, mas o segundo é abominável, e muito triste.

É claro que o pacifismo é a melhor alternativa, ainda, é a única alternativa, desde que entendamos que a violência não é quanto o Estado e a mídia insidiosa nos vendem como tal.

Quando sejamos capazes de perceber que os exércitos não fazem outra coisa que semear a violência, que a exploração económica, labora, sexual, racismo, patriarcado e capitalismo sao formas legalizadas e socialmente aceites da pior forma de violência, estaremos preparados para ejercer o pacifismo.

 

Qualquer outra atitude é uma postura respeitável,  mas ilussória, porque, certamente,  não adianta nada receber paus pacífica e mansamente se ao tempo não nos questinamos porque é que batem em nós, e quem lhes dá a legitimidade para nos baterem.

É certo. A violência apenas cria violência, e chegados a este acordo, temos de pensar que é a violência legal exercida pelos Estados a que mais violência cria. Peçamos o desarme dos Estados, em toda a extensão desta palavra (militar, económico e político) e teremos rematado com o mais importante germe de violênica da Humanidade