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Humanidade: Uma história de violência

Como seja que não me considero mais lista do que o resto, sei que quem leia este artigo perceberá  ao direito a diferença entre mostrar as falhas das vitórias pacifistas e se posicionar do lado da violência.

O problema da violência é que, apesar de ser um conceito tão repulsivo que todos repudiamos de entrada, não somos capazes de definir de modo categórico  e inequívoco o que é.

Em primeiro lugar, quando nos posicionamos contra a violência temos de definir se somos contra qualquer forma dela, sempre e em todo lugar, ou se pela contra, a violência vai ter de ser aceite nalgum contexto, tendo em conta que vivimos num mundo imperfeito cheio de pessoas mais imperfeitas ainda. Mas, de aceitarmos alguma manifestação de violência, quando, como , onde e em que medida estas vão ser aceitáveis? E o mais importante, quem vai determinar o que é violência, e o que não? Quem, como  e com que interesses é regulada a conceitualização jurídicas de preceitos como terrorismo, resistência, desobediência? Como é que estes conceitos acabam por ser vendidos à sociedade, que os asimila sem qualquer questionamento?

“A violência apenas cria violência”. A gente manifesta esta consideração com toda a razão e legitimidade, mas, mentres dizimos isto, apoiamos exércitos, apoiamos guerras fratricidas, porque, total, sempre são os outros os que sofrem e morrem, apoiamos a invassão e a intervenção militar em  paises estrangéiros, e apoiamos, por fim, um sistema económico que se nutre fundamentalmente do constante e genérico emprego da violência contra as pessoas e o médio, de jeito massivo e indiscriminado. E, com isto, defendemos um sistema de patriarcado que, em  última instância, não faz mais do que legitimar a violência endêmica sobre mais da metade da população.

E contra a violência, temos a não-violência. Se calhar, é este parte do sistema a que mais adoece de reflexão.  A não-violência é um artigo de fé, que acostuma ir sempre num só sentido. Apenas os oprimidos parecem ter a obriga de ser pacíficos, pacifistas e não-violentos. Destarte, os negros tem de responder pacificamente aos ataques da supremacia branca, a mulher tem de se resistir passivamente à violência patriarcal e todos temos de ser não violentos ante as agressões do agressivo capitalismo e do Estado opressor.

Qualquer outra atitude, seria fomentar a violência.

Mas tirando por esta via, estariamos a catalogar como ato violento a própria auto-defesa.

De um desconhecido me agredir numa rua solitária a altas horas da madrugada, eu me defender, e essa defesa causar uma lessão ao meu atacante, estou a ser violenta?

E no caso de um bulldozer pretender destruir a minha casa inclussive com minha familia dentro, sou violenta de me enfrentar a essa agressão? E quando me resisto a abandonar o meu fogar ante uma ordem de despejo legal mas injusta, sou violenta? Seriamos pacifistas  e ergueriamos as mãos ao céu caso de uma força militar estrangéira ocupar nossas ruas e nossas vidas?

São muitas incógnitas de mais.

Dum ponto de vista pacifista, todas são atitudes violentas.

Não há qualquer dúvida. Estamos num cenário muito complexo, onde, dependendo da beira do rio da que miremos uma mesma ação pode ser considerada violenta ou não. É evidente quem marca esses limites, e quem determina em que momento  qual ação pode ser considerada de violenta. E não sou eu esse quem, nem os meus pares. E quem estabelece essas condições faz ao comúm comungar com elas.

O Estado é quem monopoliza o uso e a categorização da violência. Frente a ele, os movimentos pacifistas pretendem legitimamente transformar a sociedade rexeitando qualquer ato que entre nesta categoria.

Através da História, nomeadamente  na segunda metade do século XX, os movimentos pacifistas multiplicaram-se, e mesmo lhe foram atribuidos alguns sucessos históricos. Vamos fazer um repasso dalgum dos mais relevantes.

Gandhi e a India, são, possivelmente, a manifestação mais conhecida de posicionamento pacifista, e, se calhar, também dos mais manipulados dum ponto de vista histórico, o mesmo que nos faz acreditar que a India foi liberada apenas pela ação pacifica de Gandhi e seus seguidores. Ambas partes deste enunciado têm fugas.

Para começar, a India nunca foi liberada realmente, mas a supremacia branca do Imperialismo mundial está muito interessada em uqe esta seja a única versão da história, quando a realidade é que os británicos nunca abandonaram  a India, simplesmente transferiram o controle colonial direto para um régimen neo-colonial, redigiram a nova constituição e entregaram o poder aos seus sucesores, evidentemente, escolhidos pelos ingleses. A India continua a ser explorada e provendo recursos e mercados para o imperialismo.

E para acabar, realmente nesta mudança tiveram influença muitos outros movimentos para além do pacifista de Gandhi, e a retirada británica esteve mais influenciada pelas pressões violentas dentro da própria India e pelo desgaste que supûs naquela altura as lutas armadas surdidas na Palestina que debilitaram  a um exército británico recém saido da II Guerra Mundial, e no  perigo que viam em este jeito de luta se lhes estender ao território indiano.

Outro caso paradigmático foi a luta pelos direitos civís dos negros nos Estados Unidos de América. No 1961, Martin Luther King Jr.  e o seu movimento iniciaram  uma campanha de desobediência civil pacífica por nove meses, e que acabou quando em julho de 1962 grupos de jovens tomaram as ruas obrigando às forças de polícia a se retirarem dos ghetos.  Mas não seria até os disturbios de maio de 1963, quando em resposta a uma continua violência policial a população negra decidiu contra-atacar, que a cidade de Birmingham concordou deixar de segregar as lojas do centro.  Tristemente,  a população negra tive de dizer que não ficaria mais pacifica para sempre para que J.F Kennedy mandara ao Congresso aprobar o Decreto dos Direitos Civís.

O Vietnam foi outro mito do pacifismo. A crença histórica é que os protestos pacíficos forçaram  a retirada das tropas americanas, mas o caso é que neste desenlace tiveram muita mais importância as rebeliões protagonizadas por negros, latinos e indígenas dentro do próprio exército, e o fragging levado para a frente por estes grupos, que atuaram  como atores da resistência militante que debilitou ao exército americano por dentro, para além, evidentemente, da continua resistência violenta vietnamita.


Para resumir, foram necessárias algumas ações violentas para procurar uma solução, que nunca foi tal, a conflitos artificiais, que nunca teriam aparecido sem a vontade e a intervenção direta dos Estados promotores.

A Humanidade tem um problema com a violência. Temos um problema desde que a punição por estuprar uma moça é menor do que a de estuprar um trapo, desde que queimar uma caixa automática é merecedor de mais castigo do que prender lume nas Fragas do Eume.

Temos um problema, não apenas de violência, mas de prioridades, de empatia e corência.

Porque quando os civís americanos pediam a retirada das tropas do Vietnam  não estavama pensar no sofremento dos vietnamitas, mas apenas no dos seus concidadãos, e os pacifistas que se manifestaram anos atrás deixaram de o fazer quando as tropas se retiraram e se desentenderam da maior campanha de bombardeios da história (orquestrada pelo Prémio Nobel da Paz, Henry Kissinger) ou da posterior ocupação de Vietnam do sul através da ditadura financiada e desenhada pelos Estados Unidos de América, se desentenderam de Chile, da Argentina, de Panamá, de Nicaragua, do Salvador, do Afganistão, do Kurdistão…

Quando acreditamos que os injustificavéis atentados na Irlanda, em Nova Iorque, em Madrí, em Nairobi, em Londres…são mais injustificáveis do que os bombardeios de Hiroshima, de Berlím, de Afganistão, de Iraque, temos um problema.

Desde que pedimos a paz e nos posicionamos contra a violência mentres fechamos os olhos aos feminicidios em México, em Guatemala, em Honduras, mentres fechamos os olhos aos estupros maciços em África, na India, às penas de morte decretadas por “democracias” que colorariam de vergonha ao mesmo Lucifer, mentres fechamos os olhos aos xenocídios em Ruanda, Burundi, Congo, Timor, Palestina, Sahara, Palestina, Kurdistão, os Balcãs, temos um problema, e deveriamos nos questionar se nessa condenação e rexeitamento da violência tem realmente qualquer coisa a ver com o repúdio à violência ou se renegamos apenas da violência exercida por um determinado grupo e com uns determinados objetivos. Porque, o primeiro, é muito legitimo e defendível, mas o segundo é abominável, e muito triste.

É claro que o pacifismo é a melhor alternativa, ainda, é a única alternativa, desde que entendamos que a violência não é quanto o Estado e a mídia insidiosa nos vendem como tal.

Quando sejamos capazes de perceber que os exércitos não fazem outra coisa que semear a violência, que a exploração económica, labora, sexual, racismo, patriarcado e capitalismo sao formas legalizadas e socialmente aceites da pior forma de violência, estaremos preparados para ejercer o pacifismo.

 

Qualquer outra atitude é uma postura respeitável,  mas ilussória, porque, certamente,  não adianta nada receber paus pacífica e mansamente se ao tempo não nos questinamos porque é que batem em nós, e quem lhes dá a legitimidade para nos baterem.

É certo. A violência apenas cria violência, e chegados a este acordo, temos de pensar que é a violência legal exercida pelos Estados a que mais violência cria. Peçamos o desarme dos Estados, em toda a extensão desta palavra (militar, económico e político) e teremos rematado com o mais importante germe de violênica da Humanidade

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