Israel grows medicinal marijuana in Safed

Cánabis, história duma incoerência

Israel grows medicinal marijuana in Safed

Cánabis é um gênero de angiospermas que inclui três variedades diferentes: Cánabis sativa, Cánabis indica e Cánabis ruderalis, nativos do Centro e do Sul da Ásia.

A Cánabis tem sido muito utilizada para a fabricação de fibras (cânhamo), para sementes e óleos de sementes, para fins medicinais e como droga recreativa.

Os produtos industriais de cânhamo são feitos a partir de plantas de Cánabis selecionadas para produzir uma grande quantidade de fibras.

As plantas Cánabis produzem uma família única de compostos terpeno-fenólicos chamados canabinoides. Os dois canabinoides geralmente produzidos em maior abundância são o canabidiol (CBD) e o Δ9-tetrahidrocanabinol (THC), mas apenas o THC é psicoativo. Embora a produção global de canabinoides seja influenciada por fatores ambientais, a relação de THC/CBD é determinada geneticamente e permanece fixa durante toda a vida de uma planta. Plantas que não são usadas como drogas produzem níveis relativamente baixos de THC e altos níveis de CBD, enquanto as plantas voltadas para o uso como drogas produzem altos níveis de níveis de THC e baixos de CBD. Ambos os dois tipos são suscetíveis de usos medicinais.

O relacionamento da Humanidade com o consumo e uso do cánabis remonta a mais de 6.000 anos atrás, por contra, a sua proibição pruduziu-se apenas a começos do século XX.

Durante a história, os humanos usaram o cánabis como matéria prima para a fabricação de elementos como cordas, papel e mesmo roupa. Para além, os seus princípios medicinais eram também conhecidos e utilizados desde antigo. Moitas culturas usavam também o cánabis como elemento ritual em celebrações religiosas e exercícios chamánicos e mágicos.

A respeito dos beneficios médico-farmacológicos, tem sido provado cientificamente que frena o crescimento dalguns tumores cangerígenos, reduce a possibilidade de contraer diabetes e melhora os níveis de açucar nos já diabéticos, é um estupendo paliativo no caso de enfermidades de base neurológica e inflamatórias, que cursam com múltiples dores, como a fibromialgia, a esclerose ou a migranha, combate o glaucoma ao reduzir a pressão intra-ocular, favorece a dilatação pulmonar em pessoas com processos asmáticos e mesmo favorece a sobrevivência neuronal, o que seria uma grande ajuda na luta contra o Alzheimer. Para além, tem propriedades ansiolíticas, antidepressivas e sedantes, sem presentar os efeitos aditivos nem secundários da farmacologia clássica.

Daquela, a pergunta é, quais foram os motivos oficiais porque de repente o cánabis foi considerado tão perigoso que deveu ser proscrito?

Entre os motivos “oficiais” que levaram à proibição do cánabis, no seu uso terapêutico e recreativo, estão:

-A sua capacidade de adição. Isto é falso. O cánabis não produz adição fisicamente, e psicologicamente produz a mesma que pode produzir qualquer coisa que nos resultar gostosa, como praticar sexo, tomar sobremesa ou qualquer atividade de ócio. Ainda, as pessoas a tratamento com ansiolíticos e antidepressivos clássicos, tipo Prozac, diazepam, lorazepam, etc, é que se vêm em processos de adição graves, física e psicológica, e os efeitos produzidos pela sindrome de abstinência acabam por levar a estas pessoas a novos processos de ansiedade e a padecer trastornos físicos que os deixam altamente incapacitados, entrando numa espiral para a qual a farmacologia tradicional não tem qualquer solução (ou precisamente a solução é não ter solução?).

-Toxicidade. É certo que não se pode presumir a inocuidade do cánabis, como também é certo que não podemos presumir a inocuidade de qualquer produto, em todo momento e circunstância. Para um diabético, um bolo de chocolate pode ser perigoso, o mesmo para um celíaco, e para um alérgico às nozes, um anaco dela pode ser mesmo mortal. Para compensar, a possibilidade duma sobredose fatal por consumo de cánabis é impossível, mentres, na farmacologia tradicional, as doses de segurança dos medicamentos que tomamos a diário são relativa e perigosamente baixas (a dose de segurança é aquela que não produz sobredose, mas não há dose de segurança que não produz efeitos secundários).

-Dana o organismo. Falso. Não há relação entre o consumo de cánabis e nenhum dano físico, como pode se inferir do consumo do álcool ou do tabaco, produtos, que, embora, sim são legais. De facto, não há notícia de nenhuma morte  direita ou indireitamente relacionada com o consumo de cánabis. Pelo contrário os efeitos secundários dos produtos farmacológicos usados nos utentes da medicina convencional são tão importantes que acavam desenvolvendo novas doenças. É fácil que um consumidor habitual de anti-inflamatórios sofra de problemas hepáticos e renais graves, que os consumidores de analgésicos tipo triptanos sofram graves complicações gástricas, etc, etc, etc.

-Capacidade para induzir à esquizofrénia ou a alterações mentais. As pessoas com antecedentes familiares destas correm maior risco desta droga desencadear a doença, mas os estudios desenvolvidos não acharam qualquer relação entre o uso do cánabis e a aparição de enfermidades mentais em pessoas sem antecedentes.

-Dificultade na aprendizagem e perda de memória. A respeito da capacidade de aprendizagem e memória, os estudos indicam que no caso dos adultos, ou bem estes não se produzem, ou de se produzirem, são reverssíveis incluso depois de longos periodos de consumo. Há que ter em conta, embora, que estes problemas sim podem aparecer no caso de o consumo se dar em adolescentes ou adultos menores de 20 anos.

-Causa condutas violentas. Isto também é falso, não há qualquer prova de o cánabis ter a capacidade de alterar tanto a capacidade emotiva como para virar  uma pessoa habitualmente pacífica em violenta. Esta crença é provável que derive da lenda dos “hashisiens”, de onde deriva a própria palavra assassino. Estes, eram mercenários que realizavam seus trabalhos para os senhores tribais na suas disputas e vinganças. Tudo quanto rodeava a este grupo era tremendamente secreto, realizavam ritos de iniciação e sim eram consumidores de haxixe, o qual deu por pensar que era este o motivo de atuarem com tal violência, mas o caso é que tinha muito mais a ver com este resultado o facto de serem adoutrinados e convencidos de que as suas empresas teriam como prémio o paraiso. O fanatismo religioso tinha muito mais a ver no desenlace violento do que o consumo de haxixe.

-Aumenta o apetite sexual. Depende do sujeito, da circunstâncias prévias, do momento, etc etc etc. Mas, embora assim for, não deveria ser isto um problema quando a indústria farmacéutica tem um medicamento aprovado pelos registos sanitários com este memsmo efeito médico, para além de outros prejudiciais.

Até aqui, a versão oficial dos motivos para a sua ilegalização. Vejamos agora os “oficiosos” e a que critérios atende.

O cánabis é hoje em dia a droga ilegal mais consumida do mundo e até começos do século XX ninguém se tinha preocupado por ela nem pelos seus “nocivos efetos”, mas foi nesta altura que a elite estadounidense achou nesta planta muitos interesses, tantos, que havia que buscar motivos para a proibir a sua livre produção. O motivo oficial favorito para a proibir, a sua psicoatividade. Os motivos reais, interesses económicos, religiosos, sociais e mesmo raciais.

-Raciais. O cánabis era consumido maioritariamente nos Estados Unidos por minorias étnicas, nomeadamente mexicanos e caribenhos. Entre outras, os médios de Hearst diziam maravilhas como estas:

“Negros e mexicanos viram bestas desesperadas sob os efeitos do cánabis”

“A mari juana dá valor aos negros para mirar à cara aos brancos, e mais do permissível às mulheres brancas”

“Jazz e consumo de mari juana vão unidos, por tanto o jazz é tão diabólico como a própria droga”

“O motivo fundamental para proibir a marihuana é seu efeito negativo nas raças degeneradas”

“A marihuana faz acreditar aos escuros serem tão bons como os brancos”

Em plena Depressão económica, com um índice de paro nunca visto, os imigrantes mexicanos eram vistos como intrusos, usurpadores dos recursos e do pouco emprego que “legitimamente pertencia aos americanos”. A campanha difamadora contra eles, foi amplamente aceite pelos cidadãos desesperados pela crise. Deste jeito, a ilegalização das drogas foi também uma excelente excusa para controlar e reprimir as minorias mediante a proibição e criminalização dos seus costumes.

-Económicos. Por volta de 1910, William Randolph Hearst, um magnate da prensa sensacionalista norteamericana inicia a sua guerra contra a “mari juana”. A razão? Este era um produto consumido pelos homens de Pancho Villa, e este, expropiara para a causa revolucionária umas 30.000 ha da familia Hearst em México. Os jornais e os distintos médios de comunicação sob o poder de Hearst começa a cuspir prejuiços contra o uso do cánabis e seus consumidores.

Aliás, o invento da descortiçadora de Schlichten implica que agora o cultivo do cânhamo seja uma ameaça para a indústria do algodão, por um lado, e para a indústria madereira destinada à produção de papel, por outro, ambas as duas fortemente ligadas aos lóbis mais influintes naquela altura. E ainda há mais. A família du Pont, proprietária da mais importante indústria petroquímica dos Estados Unidos tinha já na altura a patente dos tecidos sintéticos como o nylon ou o rayon. A família du Pont passou a se encarregar também da General Motors, competidora da Ford. Daquela, a Ford estava a investigar a criação de combustíveis e azeites industriais derivados da biomassa do cânhamo, o que implicaria uma grande competência,e possivelmente a ruina,  para as grandes empresas petroleiras, como a Gulf Oil, propriedade da família Mellon, um de cujos membros era Andrew W. Mellon, Secretário de Estado entre 1921 e 1932 e banqueiro, entre cujos principais clientes estavam, oh,  surpreesa!! A família du Pont.

Aproveitando o seu  cargo e influências politicas, Andrew W. Mellon cria o cargo de Comisário do Escritório Federal de Narcóticos (curioso, porque o cánabis não é um opiáceo, e por tanto não poderia ser considerado de narcótico) dependente do Departamento do Tesouro, colocando nesta vaga ao seu sobrinho político, Harry H. Anslinger. Procurava ilegalizar o cánabis e tivesse a consideração da cocaina ou heroina, para borrar o seu cultivo do mapa e a sua produção do mercado. Com isto, os tecidos, papel, biocombustível e demais produtos feitos de cânhamo deixariam de ser uma compentência importante para os interesses das famílias du Pont, Mellon e Hearst, entre outras.

Somemos a isto que os agentes do Buró do Álcool, criado para lutar contra as máfias nascidas da Lei Seca, estavam agora inoperantes. Ainda, os cárteles e sindicatos do crime organizado nascidos á sombra da Lei Seca estavam também sem campo de ação. Uma boa saida para ambos  era criar outra lacra contra a que lutar, os uns manterias a sua pertinência, os outros, o seu lucro económico do tráfico ilegal.

A pressão desta elite e dos grupos ultra-direitistas que os financiavam provocaram que em agosto de 1937 o congresso americano aprovasse a Marihuana Tax Act, proibindo seu consumo, possessão e comercio a nível Federal.

Mas não todo o mundo estava dacordo com a medida. Por exemplo, o alcaide de Nova Iorque, Fiorello Laguardia, encomendou um estudo científico independente. No 1944, após 6 anos de investigações médicas, sociológicas, psicológicas e farmacológicas, concluiram que o consumo de marihuana não tinha nenhum efeito dos descritos pelos promotores da proibição, não conduzia a qualquer comportamento violento, nem anti-social, nem alterava a estrutura básica da personalidade.

Às vistas destes resultados, Anslinger curou-se de outros similares impedindo outras investigações ao restringir o subministro de marihuana para estes fins, assim como para fins de investigação puramente médica. Nessa altura, e aproveitando o surgimento da Guerra Fria, Anslinger cambia de tática, agora declara que o uso do cánabis faz aos consumidores tranquilos e pacifistas, declarando que os comunistas introduziam a droga no país para conseguir que os americanos perdessem sua vontade de lutar, afirmando sem empacho: “A marihuana leva ao pacifismo e ao lavado de cerebro por parte dos comunistas”. Curiosa droga esta que te faz violento ou pacifico dependendo da situação geopolítica….

Aparentemente, esta foi também um dos motivos aos que se achacara o insuceso do movimento hippie. A introdução do consumo maciço desta substância. Motivo infundado, evidentemente. O movimento hippie destruiu-se a sim próprio por um mal entendido conceito do pacifismo, confundindo tal com a inatividade mais absoluta.

Já no 1961 Anslinger utilizou a influência politica de Estados Unidos na ONU para que os países unificaram suas políticas anti-droga num tratado único que ilegalizou o cánabis no mundo inteiro.

Por essas troças do destino, Anslinger foi despedido pelo presidente Kennedy. A voz em off conta que devido à afição do mesmo ao consumo de cánabis, sendo isto um rumor do que se carece de provas.

A história da proibição do cánabis está cheia de racismo, medo, preservação dos beneficios económicos das grandes empresas e jornalismo sensacionalista.

Na atualidade, os interesses das indústrias mundiais, nomeadamente a farmacéutica e a petroquimica, continuam a atuar como lóbi para evitar a legalização da produção, mercado e consumo do cánabis, com a especial incidência das farmacéuticas, que têm as patentes dos derivados do cánabis.

Que é que significa o movimento pró-legalização?

Para começar, não há um único movimento pró-legalização, mas vários que diferem nos seus objetivos. Os movimentos mais clássicos vinculam sua luta com os fins terapéuticos do cánabis, e apenas procuram  a sua legalização sob controlo estatal.

Os movimentos mais atuais procuram a liberdade no auto cultivo para consumo próprio, sem intermediação estatal, como ocorre com qualquer outro produto.

Axiomáticamente, o “sistema liberal” entra numa grave contradição, como de costume, ao interferir na vida privada das pessoas, mas nesta ocassão, como noutras, é por uma boa causa, preservar os interesses da elite dominante.

Se nos referirmos a toxicidade ou perigosidade, há multitude de produtos que deveriam ter sido proibidos antes da própria maconha, começando pelo ácool, o açúcar refinado, as gorduras hidrogenadas, os organismos genéticamente modificados, as bebidas altamente cafeinadas, os produtos fitosanitários com que se “cozinham” os produtos agrários no mundo inteiro, por indicar só algum exemplo que todos temos em casa.

O estado, embora, como pai amoroso, é que decide o que é bom e o que é mau para nós. É quem decide que veneno podemos e mesmo devemos tomar, patrocinando e promovendo o consumo de muitos produtos realmente prejudiciais.

Apelar ao critério da violência para manter a sua proibição também não se sostem. Os movimentos proibicionistas apenas servem para criar tráfico ilegal, máfias e corrução a nivel político e público, para além de criminalizar a usuários, tanto para quem acudir a ela com fins terapéuticos como quem acoda com fins lúdicos, sem qualquer base científica. A proibição é injusta e inefetiva, com enormes custes económicos e problemas sociais.

 

Não podemos defender que o uso do cánabis esté livre de riscos, como qualquer outra atividade humana, muitas das quais são perfeitamente aceitáveis e mesmo promovidas socialmente.

É certo que ninguém necessita fumar maconha com fins lúdicos, como ninguém necessita tomar bolo de chocolate, ver um filme ou outra atividade de ócio. Ou sim? Quem decide voluntária e libremente consumir maconha, deveria ter a liberdade de o fazer. Trata-se duma questão de livre eleição que não teria de estar sob a decissão e a intervenção arbitrária do Estado. Mas a nossa “cultura politica” não tem problemas para aceitar que o Estado ejerça este poder “legítimo”, que a sua palavra seja lei e controle o que cada pessoa, como ser livre, capacitado e autónomo que é, decida ou não consumir.

Confio nos meus iguais. Confio em que são capazes de discernir que é o melhor para eles. Comentava-me um amigo no outro dia que ele não fumava maconha por que lhe sentava mal. Atitude lógica, madura e coerênte pela sua parte. A mesma razão pela que eu não tomo vinho branco nem milho doce. O que também não podemos fazer é refletir nos demais as nossas limitações. Não seira lógico eu iniciar uma campanha contra o vinho branco por a mim me causar migranha, do mesmo jeito que o meu amigo apoia a legalização embora ele não consuma.

A isto se chama, em resumo, liberdade.

 

 

 

2 opiniões sobre “Cánabis, história duma incoerência”

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