rapto

Quando todas são o alvo

No dia da Galiza Mártir, ou d@s mártires da Galiza, tanto faz, é que vi a pensar nos martírios, e nas mártires. O mundo dos mártires, como tantos outros mundos, é bem diferente do  mesmo em feminino.

A mulher, assim em geral e plural, foi a mártir em todas as guerras e conflitos bélicos de qualquer intesidade desde o famoso rapto das Sabinas na antigua Roma, mas em contra do que se poderia pensar, tal situação não melhorou com a chegada da modernidade, os direitos humanos, a democracia…E isto, é devido a que num momento determinado a sociedade patriarcal se apropiou da parte feminina da mesma, e uma organização particular dessa sociedade, também chamada de Estado viu com bons olhos tal apropriamento e o reclamou para sim. Assim, a mulher passou de ser parte do clã, da familia, da etnia, a ser parte e propriedade da nação que sustentava ao Estado.

Tod@s fazemos parte dum todo, “somos de”, mas este ser apenas implica pertença no sentido da identidade, fazemos parte duma familia, dum grupo, e isso é possitivo, ajuda a nos sentirmos integrad@s, respaldad@s, protegid@s e empátic@s.

Este não é o sentido que se lhe dá ao papel da mulher nos conflitos bélicos, e mesmo depois deles. A mulher é entendida como parte integrante mas propriedade da nação, e  mentres a maior parte dos homens que padecem nos conflitos vem-se convertidos em heróis nacionais, quando uma mulher é ultrajada e estuprada, a vitima não é já a mulher mas a nação inteira, a mulher, de facto, é o menos importante, correndo uma sorte muito distinta dos homens.

O feminismo clássico continua a falar das violações na guerra como “violência de género dirigida a um grupo concreto, a mulher” mas o certo é que não é uma arma contra a mulher, porque ela não interessa nesse contexto, o mais importante não  é só as castigar, as  humilhar e as deshumanizar, o que se busca é  reprimir e destruir por todos os medios possíveis o grupo ao que pertenecem. Esta violência tem sido durante muito tempo assimilada a um signo de dominação mais do que a uma ferramenta de destruição, assim, a nação, o grupo, fica dominado pelo violador, fica sometido, atacaram a sua propriedade e isso é que merece ser contestado. Assim é que se reforça a idéia das mulheres como vítimas passivas dos conflitos armados, deixando a agência e a autonomia em maõs masculinas. A narrativa tradicional dos conflitos armados tem construido a figura da mulher desvalida que deve ser objeto de proteção, e partindo de concepções infantilizadas do sujeito feminino, é que se chega a uma estrutura social e familiar patriarcasal onde as viti entregam submissão e idolatria a cambio da nomeada proteção.

De acordo com esta vissão, de esta proteção falhar, a mulher não seria capaz de desenvolver uma resposta frente às agressões externas. Seria seu dono legítimo, a nação, a sociedade, o Estado, que teriam de cobrir essa função.

A prova de que o ataque à mulher é um ataque à sociedade e não à própria mulher é o caso das ultrajadas não pelo inimigo bélico, mas pelos membros da própria comunidade. Assim, temos múltiplos exemplos depois da II Guerra mundial, quando em todos os paises se deram casos de “Depuração”. Entre os muitos ataques aos direitos humanos nessas práticas de “Depuração”os levados para a frente contra as mulheres foram dos primeiros. Todas aquelas moças que tinham enamorado com um joven soldado alemão ou tinham tido qualquer relação com eles foram sacadas ás ruas e arrastadas pelas calçadas. Depois de receber  fortes pancadarias, seu cabelo era cortado ao zero, incluso  nalgumas ocassões  lhes fora  arrancado a tiras.

Na França gaullista mais de 10.000 mulheres francesas foram rapadas, humilhadas e exhibidas despidas pelas principais avenidas de París. Em Marselha, uma rapaza foi arrastada nua e golpeada violentamente pela multitude, pela sua própria gente, pelos seus vizinhos, pelos seus compatriotas.

Estas mulheres não eram o inimigo da França aliada, muitas delas, a maioria de não ser todas, nem sequera tiveram nunca relação com as atividades politicas e estratégicas dos colaboracionistas, apenas tiveram relação íntima com os membros das forças da ocupação, mas isso é que era humilhante demais para a França da Resistência. Sobra dizer que os militares franceses nunca foram agredidos em resposta à suas relações com alemanas.

E mesma coisa aconteceu por toda a Europa, casos similares aconteceram em Holanda, na Bélgica, na Noruega, Italia, e, por suposto, em Espanha depois da Guerra Civil.

A tendência pega a volta ao goblo e chega até hoje: a antigua Iogoslavia, Sudão, Congo, Ruanda, Burundi, Darfur, Guatemala, Liberia…

No conflito entre Paquistão e a India.70.000 mulheres puderam ser vítimas da violência sexual no periodo da partição e outras muitas morreram para evitar ser vítimas da mesma, bem cometendo atos de suicidio voluntaria –induzidas pelas  próprias familias– ou forzosamente, bem sendo assassinadas pela familia ou comunidade, como  forma de evitar que o honor das mesmas fosse posto em perigo.

O controle do corpo femenino tem sido uma constante do patriarcado com muitas diversas manifestações, seu uso como arma de guerra é apenas uma delas, como o controlo de sua sexualidad e a consideração do corpo das mulheres como uma propiedade masculina. Mediante o estabelecimento de normas sociais e culturais que sancionam quais são as condutas apropriadas para as mulheres, especial e fondamentalmente no campo da sexualidade, mas também em outros âmbitos, se produz um férreo controlo social que posibilita a perpetuação do sistema patriarcal.

Assim,  o corpo femenino se convirte em cenário de límites e fronteiras entre o permitido e o adecuado socialmente e aquelas atuações que devem ser desterradas. Desta forma, as transgressões são castigadas com o ostracismo e a estigmatização  social, mentres que a aceitação e o acatamento das normas implica o prémio da aprobação e a inclussão nos parámetros de normalidade social. No caso da mulher, esta normalidade inclui qualquer tentativa de manifestar seu posicionamento político, qualquer intento de emancipação, de libertação.

A violência contra a população civil nos conflitos armados não pode entender-se desligada de aquela violência inerente ao patriarcado, não só em tempos de guerra, mas também em ausência de violência armada organizada. A violência tem sido um dos piares fondamentais do sistema patriarcal, desde que serviu para sua perpetuação como sistema de estructuração social dominante.

O despreço patriarcal pelos corpos, ao tempo que estes são utilizados como cenário privilegiado para o controlo social e político da população, especialmente no caso das mulheres, pode valer para explicar no mínimo uma parte deste continuum de violência, embora seja este um parco consolo.

 

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