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Todos os meus amigos

 

Depois do triste sucesso da violação duma moça em Málaga apareceram artigos de distinto corte, mas o que mais me impressionou foi este em que se fala em “Cultura da violação”.

Entre outras coisas, assevera o autor do mesmo que as mulheres temos medo com motivo, e que no fundo todos os homens são responsáveis desse temor, pois, pelo simples facto de o serem, já são vistos como uma ameaça dados os antecedentes de muitos membros do seu sexo e/ou gênero.

É certo. De média, e sem individualizar, as mulheres sentem mais temor pela sua própria integridade do que os homens. Ficaria, ainda, determinar se este é fundado e proporcional. Por sorte, na maior parte dos casos, o medo é infundado e improporcional à suposta ameaça.

Um pouco de medo é bom, isso favoreceu a humanidade continuar o caminho da evolução. Sem medo, o ser humano teria se extinguido mesmo antes de começar sua história. O medo, os medos, os temores, as fobias, são vestígios doutro tempo, traços de todos os perigos que enfrentaram ao longo da sua história nossos antepassados. Memorizar esse fenômeno como ameaça ajudava a se apartar dela numa futura ocasião ou a poder a enfrentar com mais sucesso.

 Quem escreve é mulher, e confesso que em contadas ocasiões na minha vida senti medo, e mesmo quando foi assim, apenas foram segundos fugazes antes de que a parte racional da minha mente explicara o absurdo desse temor à parte mais visceral.

Não posso evitar ser mulher, também não quereria, mas o que sim posso, quero e devo, é viver sem medo, e diz-vos tal alguém que foi criada e educada tendo presente a referência de todos os temores do mundo. Para a minha mãe, o mundo inteiro era uma grande ameaça, um perigo constante. Educou-nos (às duas filhas) para não falarmos com estranhos, para que a noite não nos apanhara fora, ensinou-nos o perigo que é andar, sair, viajar sozinhas. As mulheres temos medo, mas não é casualidade, temos medo porque a sociedade, a família, o entorno nos ensina a viver com medo.

 Fiz tudo o contrário do que me ensinaram. Tive de o fazer desde que o mundo em que eu queria me desenvolver te obrigada a fazeres tudo isso, a te moveres sem se importar da hora, a viajares tanto de noite como de dia, a te deslocares a onde e quando for preciso.

Desde a minha maioridade conduzi sozinha ou acompanhada de estranhos o equivalente a dar dez vezes a volta à terra, vivi mais noites do que a lua e relacionei-me com toda@s as deconhecid@ com quem tive oportunidade em situações e entornos que para a sociedade seriam francamente hostis e ameaçantes.

Não se passou nada. Podia ter passado, sim, mas também podia ter acontecido o mesmo de eu não sair nunca de casa. Não há qualquer causalidade.

 Pessoalmente, o 90% do meu relacionamento diário é com homens. Nunca me senti vulnerável ao seu lado, nem ameaçada pela sua presência.

Quando começas por explicar que apenas tens amigas mas que para compensar a lista de amigos homens dá a volta à Muralha de Lugo a gente começa a buscar explicações freudianas cada uma mais ridícula do que a anterior num intento esquisito de justificar a exceção à regra social de que homens e mulheres não podem ser amigos, no fundo, eles são a ameaça, o inimigo. Não é preciso mais satisfações, relaciono-me maioritariamente com homens porque o mundo em que me movo é um mundo maioritariamente masculino, por motivos que agora não daria para explicar aqui, e o relacionamento, partilhar experiências, vivências e objetivos faz o carinho e cria a amizade.

Me relacionar com os homens fez me perder o medo. Foi um processo doloroso por enquanto me estava a apartar da base da minha educação, mas era necessário. O contrário, pareceria-se muito com não estar viva. O primeiro que fiz foi despir aos meus companheiros de etiquetas, e passaram de serem homens a serem simplesmente pessoas, e como pessoas, não representam qualquer ameaça para mim. Seria insuportável mirar a qualquer dos meus companheiros à cara e ver nele um possível atacante e me reconhecer a mim própria como vítima, seria injusto para eles e para mim. Não posso viver pensando que cada homem com quem me cruzo me vai danar, por enquanto não é certo, e não quero me complicar a existência com a preocupação de meditar sobre o cumprimento da saia ou o apropriado do decote cada vez que me tenho de relacionar com um companheiro, seria mentalmente agotador para além duma perda imensa de tempo. E ainda também não quero que eles se sintam incômodos suspeitando do meu medo, apenas serviria para tal incomodidade limitar ou mesmo impedir as nossas interações, e com sinceridade, nem homens que me rodeiam merecem tal nem eu estou disposta a que tenham de sentir esse mal-estar. Com essa disposição apenas estaria projetando nos demais as minhas limitações e temores infundados, e não tenho vontade.

 Mas a sociedade insiste, insiste, insiste em nos atemorizar, em que devemos nos proteger, aprender a nos autodefender e a nos vermos sempre como vítimas potenciais pelo mero facto de sermos mulheres.

Vítimas potenciais somos toda@s. Toda@s somos vulneráveis nalgum momento, podemos sofrer um acidente, uma agressão, qualquer dano, mas isso faz parte da vida e viver num pânico constante não adianta nada, apenas ajuda a nos limitar como seres autônomos e independentes.

 Sem o pretendermos, no fundo é o nosso medo que alimenta as relações patriarcais.

Como somos vulneráveis devemos procurar um protetor e iniciar o círculo da dominação, dominação que se entende sexual, racial, étnica, classista, econômica, cultural, militar, política e religiosa. Sempre há algum grupo a dominar sobre outros, o homem domina à mulher, os brancos dominam aos seres de qualquer outra cor, os ocidentais ao resto do mundo, a cultura e economia urbana ao rural, o capitalismo domina o espírito humano e à natureza. Assim, até o infinito, e todas intimamente relacionadas entre elas.

 Isto é que temos de banir, não a liberdade das pessoas. Temos de banir o conceito de os “desejos de um/a” serem mesmo “ordem” para o resto, expliquemos que a violação não é resultado de homens/mulheres enferm@s mas duma sociedade enferma que aceita e fomenta relações de poder de um/a frente a outro@s. O perigo não são as pessoas individuais per se, mas as situações artificialmente criadas, e para eliminar esse perigo teríamos de eliminar as relações de poder que o produzem e recuperarmos a soberania pessoal, a liberdade de ação e de interação para podermos ver no espelho do outro e que essa imagem nos construa também um pouco. Em contra, somos obrigad@s a procurar em muitas faces a um inimigo ireal. Ser homem, negro, estrangeiro, cigano, musulmano é motivo suficiente, diz a sociedade, para eu te dever ver como inimigo.

O único que temos de ver num desconhecido é um conhecido em potência, alguém com quem colaborar, ajudar, pedir ajuda, e interatuar com naturalidade para maior desfrute da viagem que é a vida.

Banir o conceito de dominação e as relações de poder, isso sim adiantaria muito, mas é precisamente o mais complicado.

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