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De como a “libertação” nos oprime.

Não é discutível o facto de serem as mulheres quem mais têm sofrido com a libertação da mulher, própria da era capitalista. Vejamos um breve repasso histórico:

Século XIX, a mulher, em tanto que ser privado de vida “politica” (se entendemos por esta a práxis pública nas instituições

regulamentadas pelo estado) e de vida “profissional” (entendendo também aqui realizar um trabalho para terceiros mais ou menos remunerado) tinha como campo próprio a criança dos filhos, o cuidado da casa e a colaboração nas tarefas e negócios familiares.

A II Revolução Industrial avança, os homens não são suficientes para satisfazer as demandas de mão-de-obra, e a mulher é incorporada a postos onde possa desempenhar labores acordes com as suas atitudes (acorde-se que ainda não temos capacidade para dirigir nossos assuntos e temos de estar tuteladas por um varão, destarte, dificilmente podemos levar para a frente postos de responsabilidade), assim, as mulheres abandonam a carreira do matrimónio e começam a trabalhar por conta alheia, assalariadas, sendo considerado isto o “começo da libertação feminina”. Note-se que a incorporação da mulher ao mundo do trabalho não a releva em nenhum momento dos seus roles “intramuros” como esposa, mãe, cuidadora… Seja, que a libertação em princípio, não faz mais do que encher à mulher de mais obrigas.

Amadurece o século XIX, as mulheres vem como vão medrando as suas obrigas, mas não os seus direitos (de facto, as revoluções liberais que tanto falavam da libertação do homem, e dos direitos deste, falavam, em efeito “dos direitos do homem” não do ser humano) e algum grupo começa a pedir o sufrágio feminino.
“Não é má a oportunidade – deveu de pensar o poder – de meter no sistema a metade da população, mas deixemos que clamem mais um bocado”.

Século XX, a IGM provoca a “feminização” do tecido produtivo e industrial, os homens estão na frente bélica e os seus lugares são ocupados pelas mulheres e crianças. O processo de mudança social  acelera-se e com ele o sufragismo, e a começos da década dos anos 20, catorze países de Europa aprovaram já o sufrágio feminino.

Aprova-se o direito a sufrágio para a mulher, mas a sociedade em geral carecia dos conceitos de “feminino” com rol social, tudo quanto valia a pena no mundo, estava definido consorte ao rol masculino, daquela, as novas instituições sociais aparecidas nesta época adoecem de masculinização. E, destarte, os maravilhosos objetivos que se pretendiam nunca foram conseguidos. O voto feminino não valeu mais do que para legitimar os objetivos e metas da sociedade patriarcal.

Avança o século XX, cortamos os cabelos e as saias (por exigências do guião, mais nada) e já estamos um pouco mais livres. Mesmo, a alguém lhe ocorre formas supletórias de nos liberar e acedemos maciçamente à universidade, ainda, com o andar do século somos maioria nas instituições educativas superiores. Assim “feminizamos” profissões, ao tempo que o nicho deixado por nós tem de ser ocupado por varões (de repente há enfermeiros, há cuidadores de infantário…), mas liberar, o que vem sendo libertação, até aqui pouca.

Com o fim do século XX, a coisa melhora. Agora, ademais de trabalho assalariado e não assalariado, de sermos mães, e esposas, e donas da casa (encobertas sob um cartão de visita que diz Diretora comercial ou Gerente) também temos de ter êxito para demonstrar que a nossa valia fica fora de toda dúvida, e age toda uma nova série de exigências para com a mulher, pois este êxito implica uma carreira profissional dentro dos cânones burgueses, educação superior, ser culta, e ter família, acatando a sociedade como verdade absoluta o facto de o instinto maternal ser uma das caraterísticas que definem a mulher. E se calhar este é o assunto mais controvertido, pois inclusive tendo em conta uma visão feminista, a decisão da mulher está sempre submetida a condicionamentos alheios a ela. Esta deveria ser uma decisão pessoal, voluntária e consciente, e nem o Estado nem a sociedade devem influir nesta, para um sentido ou para outro. Que uma mulher não deseje ser mãe não faz dela menos mulher, mas que essa seja decisão pessoal, e não imposição dum sistema que obriga a esta a relegar esse facto por ter de cumprir com outras obrigas impostas artificiosamente. E na inversa, quem desejar ser mulher, seja por vontade, não por alguém opinar que esse é o seu fim, ou o que melhor pode oferecer ao mundo.

Noutro ponto teremos de falar da “estetocracia”, esse poder sobrenatural que exercem sobre nós aqueles que têm o dom divino de saber o que é o bonito e o que vem sendo o feio, e com estes argumentos dizem-nos o delgadas que temos de estar, quanto nos tem de medir o contorno dos seios e o longo das pestanas.

Por outro lado, também o de ficar na casa está mal visto, temos de ser independentes, há que se liberar, trabalhar por volta de catorze horas no dia, fazer desporto, aprender a falar russo, assistir a um clube social, ler, lutar contra a celulite, e um lote de deveres mais, que em nenhum sitio estão escritos mas que dirigem as nossas vidas.

Assim as coisas, as mulheres sobressaturadas de responsabilidades e cargas, começam mais uma vez a ralhar com o dos direitos das mulheres, a igualdade, a libertação real, e o sistema, reage como sempre, solucionando o problema pela via da institucionalização. As politicas feministas passam a formar parte dos programas eleitorais, da praxe politica, criamos ministérios de igualdade, Direções Gerais da mulher, coisas como paridade, igualdade de géneros e conciliação, fazemos um infantário no centro de trabalho, assim a criança pode se ir acostumando já à situação de exploração que lhe aguarda. Que melhor coisa que mamar a escravidão desde tão terna infância! E ficamos todas tão contentas, e aplaudimos porque pensamos que isso é a libertação.

Vejamos, podemos aceder ao mundo profissional e laboral, temos um trabalho assalariado, carreira universitária, votamos, até podemos ser diretoras de empresa, advogadas do Tribunal Superior, ou ter cargo político e militar, a coisa promete e parece um bom câmbio, né?

Depende. Depende de como esteja condicionado este câmbio, e a condição fundamental é que nunca se nos aceitou neste sistema patriarcal como mulheres que fazem parte do sistema, mas como mulheres que aceitam “o sistema”, que atuam como homens e como tal, acedem ao mesmo. Esta é a realidade. Chegamos a muitas partes, mas chegamos como homens, não como mulheres.
Não houve, ainda, nenhuma libertação da mulher (nem também do homem, já postos) mas essa vai ser a nossa tarefa para o século XXI, criar as condições onde a mulher e o homem, como seres humanos, como metades complementares e não antagónicas nem competidoras da humanidade, estejam em todas partes onde voluntária e livremente queiramos estar, de jeito natural, sem paridades, sem quotas.

Temos de nos reinventar como seres soberanos, temos de feminizar-nos de novo sem que isto possa ser considerado nem negativo, nem positivo, simplesmente parte de nós, de como nos vemos, e de como queremos ser vistas.